A espada de Dâmocles – Jayme José de Oliveira

PONTO E CONTRAPONTO – por Jayme José de Oliveira

“Por mais brilhante que sejas, se não fores transparente, tua sombra será escura”.

A ESPADA DE DÂMOCLES

Sempre, em todas as épocas, em todos os quadrantes da Terra, sob qualquer forma de regime de governo, uma preocupação pesava sobre os eventuais detentores do poder: serem assassinados por quem almejava os suceder. Abraham Lincoln (16º presidente dos Estados Unidos) e John Fitzgerald Kennedy (35º presidente norte-americano), vítimas mais recentes.

A iminência e constância do perigo que ronda, não apenas os líderes máximos duma nação, os proeminentes em qualquer setor, inspirou inclusive a literatura. Dâmocles é protagonista de uma anedota moral que figurou originalmente na história perdida da Sicília por Timeu de Tauromênio (356 – 260 a.C.).

Era um cortesão bajulador na corte do tirano Dionísio, de Siracusa. Ele dizia que, como um grande homem de poder e autoridade, Dionísio era verdadeiramente afortunado.Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele também pudesse sentir o gosto de toda esta sorte, com baixelas em ouro e prata, atendido por garotas de extraordinária beleza, e servido com as melhores iguarias.

No meio de todo o luxo, Dionísio ordenou que uma espada fosse pendurada sobre o pescoço de Dâmocles, presa apenas por um fio de rabo de cavalo. Ao ver a espada afiada suspensa diretamente sobre sua cabeça, Dâmocles perdeu o interesse pela excelente comida e pelas belas garotas e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão “afortunado”.

A espada de Dâmocles é uma alusão frequentemente usada para representar a insegurança daqueles com grande poder.

O jovem Mitrídates (rei do Ponto, de 120 a 63 a.C.) assistiu ao seu pai morrer. E não foi deitado numa cama, esperando o abraço da morte depois de uma vida de glória: foi no meio de um banquete. O velho Mitrídates foi envenenado, sufocou e morreu na frente dos seus convidados. O assassino nunca foi descoberto. O príncipe, temendo ser assassinado como o pai, criou o hábito de beber uma dose muito pequena de veneno todos os dias. Uma gota na primeira semana, duas gotas na segunda, três na terceira – até chegar a doses quase letais. O organismo foi se adaptando aos venenos e desenvolveu uma resistência que passou a ser conhecida pelo nome de “mitridatismo”.

Em 15 de março de 44 a.C., Júlio César foi assassinado durante a reunião do Senado, em Roma. Ele estava com 55 anos de idade, e gozava de grande popularidade entre suas legiões e o povo romano. Cinco anos antes, prestigiado por suas conquistas na Gália, Júlio César atravessou o Rubicão com suas legiões,decidido a enfrentar Pompeu seu adversário político.

Eliminado Pompeu o caminho estava aberto para César assumir o comando de Roma com plenos poderes. O Senado, em 44 a.C., nomeou-o ditador perpétuo. Os poderes de César incomodaram seus inimigos que passaram a buscar motivos para derrubá-lo do poder. A oposição senatorial acusou César de pretender ser aclamado rei de Roma e que isso aconteceria na próxima reunião do Senado marcada para os idos de março (metade do mês) de 44 a.C. Um grupo de senadores aristocratas conspirou a morte do ditador, entre eles estava Marcus Junius Brutus, sobrinho de César, e Cássio, o ex-chefe da frota de seu inimigo Pompeu.

César foi alertado por amigos que corria risco de vida, inclusive por sua esposa Calpúrnia que tentou convencê-lo de não ir ao encontro dos senadores. Mas ninguém conseguiu detê-lo. Ao chegar ao Senado, os conspiradores já estavam todos reunidos à sua espera. Os senadores se aproximaram e um deles provocou César agarrando-o pela toga.

Era o sinal. Plutarco relata que cerca de 60 homens participaram do assassinato e que César teria sido apunhalado 23 vezes. Seu corpo caiu aos pés da estátua de Pompeu, o antigo rival que ele havia derrotado. Entre os conspiradores que assassinaram César estava Marcus Junius Brutus. Segundo Suetônio, ao ver Brutus entre os assassinos, César disse suas últimas palavras: até tu Brutus? Cercado, César se cobriu com sua toga e se deixou apunhalar.

Decorrem séculos, os episódios se sucedem e os temores se confirmam amiúde. Os sicários são fáceis de arregimentar, por vezes – a exemplo de RamónMercader, que assassinou Leon Trotski, como veremos a seguir – impulsionados por ideologia. Serviços de espionagem e contraespionagem se esmeram, uns em promover, outros em impedir os desenlaces, podem mesmo atuar nas duas frentes.

Na década de 1940 a ascensão do nazifascismo se combina com uma escalada repressiva interna na União Soviética que levaria à execução de milhares de militantes, um número de prisões que excederia a casa de um milhão e a montagem de uma situação que não admitia dissidências. Trotski se tornaria o mais destacado dos hereges que se tornou o alvo de uma campanha, em nível mundial, de perseguição, tentativa de desmoralização e, finalmente, assassinato.

A ascensão de Stalin colocaria uma meta no horizonte: “sepultar o trotskismo como corrente ideológica”.Trotski é expulso do partido em 1927.A partir daí começaria seu exílio de 12 anos, com passagem na Turquia, Noruega e França, até seu destino final, o México, em 1937.

Ramón Mercader não era um assassino de aluguel. Era um revolucionário profissional, orgulhoso do papel que representava. Confidenciou a Pavel Sudoglarov: “Ninguém escolhe o tempo de viver, morrer ou matar”. Sabia o que estava fazendo quando assassinouTrotski e o fez por convicção. Sua última missão foi urdida sob um denso véu de mistério. Foi preso imediatamente após o crime, na cidade de Coyoacán, México. Libertado após 20 anos mudou-se inicialmente para Moscou e, nos anos 70, para Cuba, onde viria a falecer.

A União Soviética foi desmantelada há mais de duas décadas. Os erros, os excessos e escolhas feitas por seus dirigentes contaram muito para essa dissolução.
Leonardo Padura, escritor cubano, escreveu “O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS”, traduzida para vários idiomas, embora narre fatos históricos em forma de romance, não é uma obra de ficção. Aborda um fato real: após cumprir pena pelo assassinato de Leon Trotski, Ramón Mercader se refugia em Cuba.

Militante comunista espanhol, recebeu a tarefa de eliminar Trotski. O livro descreve seu treinamento em Moscou, as mudanças de identidade e os artifícios para ser aceito na intimidade do líder oposicionista. Permite ao leitor mirar com olhos críticos as contradições do socialismo e porque a morte de Trotski, decidida por Joseph Stalin, contribuiu para a queda do Muro de Berlim e o desmembramento da União Soviética. Retrata as contradições das utopias libertárias que eclodiram no século XX e expõe as contradições do mundo em que vivemos. Destaco alguns trechos da obra:

“A orientação partidária do momento era primeiro consolidar uma república para mais tarde radicalizá-la”. (pag. 102) “Anarquistas e sindicalistas só podiam ser considerados como companheiros de viagem, descartáveis na escalada em direção aos grandes objetivos quando eles, comunistas, estivessem em condição de promover a verdadeira Revolução, que conduziria a uma necessária ditadura do proletariado” (pag. 103). “Na arte tudo tem de ser permitido, menos atentar contra a revolução proletária”. (pag. 368)
“Lev DavidovitchBronhstein (Trotski) pôde ver no horizonte a chegada do previsível encontro entre Hitler e Stalin pelo qual os dois ditadores tinham trabalhado em segredo (ou nem tanto) nos últimos anos. Por ora, devem ter acordado numa partilha da Europa: Hitler desejava a supremacia ariana e transformar o leste do continente em seu campo de escravos; Stalin sonhava ter um império maior que os czares jamais tivera. O choque dessas ambições seria a guerra”. (pag. 373)

“Os dois ditadores, tal como calculara, estendiam as mãos sobre a Polônia”. (pag. 406).

“Mas se, como diziam alguns vencidos pelas evidências, a classe operária tinha demonstrado com a experiência russa sua incapacidade de governar a si própria, então seria necessário admitir que a concepção marxista da sociedade e do socialismo estava errada“. (pag. 406)

“Os pactos de Stalin com Hitler e, mais tarde com Roosevelt e Churchill. Ou você acha que as partilhas da Europa foram feitas de qualquer maneira, ao estilo – cheguei primeiro então isso é mmeu?” (pag. 554)

21 DE AGOSTO DE 1940: RAMÓN MERCADER ASSASSINA LEON TROTSKIEM COYOACÁN, MÉXICO.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

Comentários

Comentários