A fábula dos dois burrinhos – Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

Esopo era um escravo grego que se tornou escritor e adquiriu destaque com suas fábulas. A dos dois burrinhos foi inclusive lembrada e citada por La Fontaine, fabulista francês. Ambos usavam animais que falavam e procediam como humanos e, dessa maneira, representava simbolicamente nossas virtudes e defeitos.

A que me refiro serve como uma luva para o Brasil de hoje.

Em vez de dividirmos e dessa maneira usufruirmos as riquezas e oportunidades que se nos deparam, o comum é uma luta sem quartel (não tirem ilações) que apenas desgasta e inibe um proveito comum. Quando se digladiam e procuram alijar os rivais, TODOS ficam “a ver navios” e o Brasil patina em vez de alçar voo rumo ao progresso e bem estar que se avista na fímbria do horizonte.

O Brasil se tornou um país maniqueísta, reage com nuances ciclotímicas que induzem a uma pobreza intelectual sem tamanho. Não admitimos meios termos, ou és de esquerda (comunista) ou de direita (nazista). Ora, comparar o Brasil com a República de Weimar, responsável pela tentativa de extermínio dos judeus, ciganos e minorias várias é tão esdrúxulo como se rotular os adversários de seguidores de Lenin, um regime tão sanguinário e violento como o de Hitler. Ambos patrocinaram milhões de mortes e arrasaram seus países e aliados.

A dicotomia que rege nossos passos se retrata em quantas oportunidades apareçam. Quando um partido ascende ao poder trata, incontinenti, de desfazer o que o anterior elaborara. Não importa tenham sido avanços ou desastradas atitudes. Assim ocorre, por exemplo, com os “Mais Médicos”.

Na gestão da presidente Dilma foi acordada a vinda de médicos cubanos para suprir necessidades prementes no Brasil. Ocorreram disparidades e desvios, inclusive desconsiderando a legislação vigente: aos médicos cubanos não foi exigido o exame revalida, indispensável à efetivação de TODOS os estrangeiros postulantes que queiram atuar no Brasil. Uma das cláusulas do contrato assinado com a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde)repartiu os R$ 11.865,00 – pagos pelo Brasil – em duas partes desiguais: R$ 8.865,00 ao governo de Cuba e R$ 2.996,00 aos médicos.

“Ninguém vem de Cuba enganado, afirma RicheleCollago Cruz, médico que atua no município de Chapada-RS. Quando a gente vê a diferença, se comparado com os R$ 300,00 (o equivalente ao salário em Cuba) corresponde a um grande salário”. Parece uma partilha justa, se consideramos que ambas as partes estão concordes. Esse contrato representa o equivalente a uma terceirização de vínculo empregatício. A lei nº 13.429/2017 foi votada e aprovada pelo Congresso Nacional.

O presidente Temer sancionou. A incongruência reside no fato de o PT, em sua totalidade, e os seus aliados na ocasião (em sua maioria) votaram A FAVOR do contrato de terceirização dos “Mais Médicos” e CONTRA a supracitada lei da terceirização brasileira. Não cabe aqui julgar se a leié justa ou prejudicial aos trabalhadores brasileiros, mas ressaltar que, para situações equivalentes, deputados votaram de maneira oposta, de acordo com as convicções do momento.

Especula-se, com justa razão, da oportunidade de o presidente eleito ter provocado um conflito que resultou na ordem de retorno aos médicos cubanos, ordem esta emanada do governo de Cuba. Uma coisa é indubitável: cerca de 24 milhões de brasileiros ficarão carentes de assistência médica até ocorrer a reposição. O governo federal lançou um edital para suprir essas vagas (inscrições no site “maismedicos.gov.br”).

Vagas abertas no edital: 8.517, até 03/12/2018 foram recebidas 34.357 inscrições. Destas, 8.393 tiveram vagas selecionadas, o equivalente a 98,5% do total.Vagas para os estados do Amazonas, Pará e Amapá ainda não tinham médicos interessados. São 124, em locais de maior vulnerabilidade. Embora a adesão ao edital seja considerada alta, a possibilidade de desistências gera preocupações.

Desde 29/11/2018 o Ministério de Saúde passou a ligar para médicos inscritos para solicitar que se apresentem de forma imediata. Também pedem que aqueles que planejam desistir comuniquem para apurar o lançamento de um novo edital.

Um problema de proporções gigantescas foi criado e a solução não pode tardar. Milhões de brasileiros não podem ficar desassistidos.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

 

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