A força do significado – Sérgio Agra

A FORÇA DO SIGNIFICADO

“Cortaram a rede alta, e quem vinha

Cobriu os trilhos com viscoso unguento.

E eis a cidade: triste . . . vazia . . .”.

Bondes – L. de Lucca

Não bastasse a eclosão do Vírus chinês, o mês de março deste atípico e assustador 2020, em que pesem transcorridos 50 anos, trouxe amargas lembranças a meu amigo e xará Sergio Luiz, até hoje visivelmente consternado ante a frieza de Telmo Thompson Flores, biônico alcaide de Porto Alegre (1969-1974) no sombrio período da ditadura militar, que não teve pejos em sepultar para todo o sempre um dos mais caros e afetivos patrimônios histórico-cultural de nossa cidade: os bondes. Neles não há quem, maior de sessenta, não vivenciou venturosas e inesquecíveis histórias.

Meleninha, missioneiro, parido sob os caprichos do Minuano e das intempéries que rasgavam as coxilhas, transformado homem ante os confrontos com os mistérios das noites de plenilúnio que apenas as plagas de São Miguel poderiam gerar, não resistiu à emoção. O ex-motorneiro do bonde Gasômetro jamais imaginaria que trinta anos mais tarde os dois moleques pingentes – um arquiteto, o outro advogado – encontrassem a casa de adobe na encosta do Morro da Embratel onde ele morava.

O bonde invariavelmente estava atrasado. Isto pouco importava. Eram tempos outros, do Long-Play de vinil, da Bossa Nova, dos bailes da Reitoria, das saias godê e do Glostora, com o qual Meleninha besuntava os longos cabelos. O condutor sempre cuidara para que seus dois passageiros chegassem a tempo na escola. O Colégio Farroupilha vivia seu derradeiro ano no velho casarão da Alberto Bins.

Meleninha nutria paixão pelas árias de Verdi e Puccini e as solfejava para divertimento nosso. Seu maior ídolo era Enrico Caruso. O motorneiro jurava que ainda viveria para assistir ao vivo um grande tenor.

O bonde, rangedor disparava sobre os trilhos. Meleninha entoava a ária BellaFigliaDell’Amore, da ópera Rigoletto. De repente, o estrondo! Labaredas dominaram a caixa do acelerador e dos freios do elétrico. Sergio Luiz e eu enveredamo-nos para a porta a fim de saltar mesmo com o bonde em movimento. Sem hesitar Meleninha puxou-nos pela gola da jaqueta escolar garantindo-nos: – Este foguinho mixuruca eu acabo com um assoprão! – e pôs-se a abafar furiosamente as fagulhas com o seu quepe.

Meleninha trazia os olhos marejados quando se acomodou no automóvel de seus antigos passageiros rumo às Missões. Ele iria beijar os trigais e o campo natal estendidos em suaves planuras e coxilhas.

Sob a noite estrelada, no cenário das ruínas de São Miguel, Alcides dos Santos, o Meleninha se comoveu ante a sublimidade do tenor Jose Carreras*.

08/03/2020

*José Carreras se apresentou nas ruínas de São Miguel das Missões, no dia 30/10/1997,

Foto do autor junto à réplica em bronze de um bonde da Cia. Carris Porto-alegrense, troféu conquistado por Relatos da História – em evento aos 130 anos daquela Companhia.À direita o modelo de carroceria mais bonito da frota.

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