A primeira noite de um homem – Sergio Agra

Não, não pensem que da noite para o dia tenha eu me tornado um profundo conhecedor, excelente crítico de cinema, com autoridade para dissertar sobre “A Primeira Noite de um Homem”, produção cinematográfica do ano de 1967, dirigida por Mike Nichols, que narra a história deBenjamin Braddock (Dustin Hoffman). Após se formar na faculdade, Benjamin retorna para casa. Indeciso quanto ao seu futuro, ele acaba sendo seduzido pela Sra. Robinson (Anne Bancroft), uma amiga de seus pais. A relação se complica ainda mais quando o rapaz se vê forçado pelos pais a ter um encontro com a filha dela, Elaine (Katharine Ross).

Em que pese o título desta crônica ser homônimo ao do filme, minha história, além de não se tratar de ficção, é diversa e bem mais próxima a nós, precisamente na Porto Alegre no meado dos anos 1970.

Naqueles idos reinava absolutoo rendez-vous da Mônica, no bairro Cristal, cuja dona era uma senhora que veio do Leste Europeu, búlgara ou húngara. Ela traduzia até Thomas Mann, uma intelectual fugida das delícias do comunismo.

A Casa da Mônica era um dos mais luxuosos prostíbulos da cidade. Além de belas, seletas e jovens mulheres, algumas universitárias que ali sustentavam seus estudos, a casa ostentava a magia do instigante “Quarto dos Espelhos”, o que alimentava mais ainda as fantasias dos estancieiros, empresários, industriais e políticos, haja vista o preço “da hora”.

Éramos sete os amigos: à exceção do jovem acadêmico de engenharia, o Luizinho, e do Procurador de Justiça, o “tio” do grupo, contávamos entre os 27 e 0s 35 anos de idade. Encontrávamo-nos na festa dos noventa anos do avô de cinco dos parceiros.A data, 14 de julho.

Às tantas horas, ao neto considerado o “mais comportado” fora dada a incumbênciade levar amigo e contemporâneo do aniversariante de volta a sua casa. Como planejáramos, o caroneiro informou que levaria Luizinho para que lhe fizesse companhia no retorno. A mãe do acadêmico saltou da poltrona onde se atracava voluptuosamente na generosa fatia de uma torta de damasco e, autoritária, proibiu a saído do mancebo. As tias acorreram e, ante o voto vencido, à castradora genitora somente restou permitir ao inseguro filho o prazer do passeio.

Alguns minutos após a saída com o convidado, os cinco parceiros, a bordo de um Chevrolet Opala rumamos para a Zona Sul de Porto Alegre. Destino: Bairro Cristal, Rua Icaraí.Local de desembarque: a tão sonhada Casa da Mônica.

Por favor, leitor, calma, minha generosa leitora, os cinco pândegos, todos casados, não nos arrojamos para, ainda que desejada na imaginação de cada um de nós, a louca e desvairada aventura erótico-sexual nos braços da mais fogosa, lasciva e lúbrica das mulheres sobre os sedosos lençóis da Casa da Mônica. Para lá dirigimo-nos, tal escolta de um estadista ou de uma suprema autoridade que chegassea país estrangeiro, “abrindo o caminho” para o jovem Luizinho que, aos vinte e cinco anos era… ele era… era… – acreditem, afinal, estávamos nos anos setenta do Século XX! – …era VIRGEM!

Sim, você não leu mal, seus olhos não lhe estão a pregar peças! Luizinho era virgem!!!

Havíamospreviamente,os alcoviteiros, os desencaminhadores de “donzelos” nos cotizado para o pagamento dos honorários pelos serviços a serem prestados pela garota, o que hoje representaria uma soma equivalente a R$ 1.000,00.

Trabalho mais árduo, no entanto, fora o delegado ao caroneiro: convencer o virginal estudante a aceitar o desvio de rota e, sobretudo,o destino e razão deste. A primeira etapa do “projeto”, ainda que melindrosa, fora realizada com sucesso.

Jamais esperávamos, entretanto, um impasse maior. Após delicadas tratativas e uma desistência a segunda “menina” logrou convencer,para alívio e felicidadegeral dos seis “patrocinadores”, que Luizinho ascendesse à alcova dos espelhos.

Os minutos se arrastavam com a supersônica velocidade de uma lesma.A“torcida organizada”já dava mostras de inquietação, ansiedade e preocupação, no que fora tranquilizada pela voz da experiente “gerente de plantão”: – “Vocês não lembram, a primeira vez é sempre demorada!”.

Finalmente ouviram-se os passos nas marmóreas escadas. Era o infante Luizinho, agora feito homem, o sorriso a estamparas faces de quem flutuava num tapete mágico das Mil e uma Noites.

No silêncio das altas horas daquele 14 de julho, as ruas foram despertadas pelo ronco de dois automóveis e pela euforia do alegre bandode passageiros a entoar a canção alusiva à data:

Allons enfants de laPatrie

Le jour de gloire est arrivé

Contrenous de latyrannie

L’étendardsanglant est levé

L’étendardsanglant est levé…”.

Na calçada fronteira à casa do jubiloso avô inusitado comitê de recepção nos aguardava. Convidados e familiares tentavam, em vão, acalmar a histérica mãe de Luizinho que sequer imaginara por que caminhos o inocente filho havia finalmente desbravado.

Soube mais tarde que a tirana mãe de Luizinho houvera realizado um BO na delegacia de polícia mais próxima, denunciando o estranho sumiço de suas valiosas joias.

Como soi acontecer, a suspeita recaíra sobre a diarista…

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