A turista universal – Sergio Agra

A TURISTA UNIVERSAL

 Não! Minha amiga está anos-luz de distância de Macon Lear, personagem de William Hurt no filme “Turista Acidental”. Infinitamente distante!

Enquanto Macon Lear, um escritor de guias de viagem para pessoas que detestam viajar, após a violenta morte do seu filho cai em depressão profunda, o que leva sua esposa a abandoná-lo; a solitária e aborrecida existência em que se transforma a sua vida vai ser alterada por uma treinadora de cães, que lhe devolverá a alegria e o interesse pelo mundo e das viagens, minha culta e esfuziante amiga Maria da Graça percorre agora “cantões” que os viajantes de ocasião raramente se dispõem visitar. Por oraela circula pelas ruas do Centro Histórico com casinhas coloridas, de construções medievais, pelo Grande Relógio e pela Praça do Mercado Antigo da exótica Rouen, a capital da Normandia. Foi ali que Joana D’Arc, hoje santa, na época guerreira, foi condenada à morte na fogueira. Na Catedral de Notre-Dame de Rouen está sepultado Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra.

Viajar por roteiros que você mesmo traça, sem depender da disposição ou indisposição, do mau humor e da impontualidade de outros viajantestem ganhos maiores do que o “pacotão”, um grupo de 20/30 ou mais pessoas. Nesta modalidade, se você for um observador do burlesco comportamento humano a comicidade dos micos que não poucos cometem compensa os dissabores menores.

Quando participei de Congresso de Advogados em Cannes, formávamos um hilário e heterogêneo bandode aproximadamente sessenta gaúchos, cuja maioria era oriunda de cidades do interior. Destes, quatro casais optaram por usufruir somente dos tours a roletas e bacarás dos cassinos; nós outros incursionamos pelos Museus de Madame Tussauds, do Louvre e do Prado, pelas bibliotecas ecentenárias livrarias de Madri,pelo Cemitério Père-Lachaise e poucos, muito poucos pelos bas-fonds com esquetes pornô-eróticos cujas performances sequer atrevo descrever.

Na Place de la Concorde, ao pé da Avenida Champs-Élysées, em Paris, após longa caminhada, paramos para saborear as famosas “Pommes d’Amour” (Maçã do Amor). Distraída e provecta senhora, encantada, cerrou os olhos e com sofreguidão abocanhou o rubro e caramelado fruto. Sequer se dera conta de que a prótese dentária, teimosa e irreverente, havia se cravado irredutivelmente àquela iguaria.

No Vaticano vislumbrávamos os afrescos da Capela Sistina. A divisão principal do teto expõe em nove painéis as cenas do livro do Gênesis. Em meio ao deslumbramento, a mesma infeliz senhora das pommes d’amour, após ouvia as explanações da guia turística, quebrou o místico silêncio ao exclamar: – “Eu não acredito que o Miguel Angelo tenha feito isso! No mês passado ele ainda almoçou lá em casa!”. Constrangido o filho em voz baixa e contida corrigiu: – “Esse que pintou a Capela, mamãe, é um italiano, Michelangelo Buonarroti, que viveu entre os anos de 1475 e 1554, e não o Miguel Angelo, meu sócio de escritório!”.

Quando nos dirigíamos de ônibus à Catedral de Notre-Dame, em Paris, a esposa de um conhecido advogado do interior do Estado proclamou em alto e bom som para quem lhe quisesse ouvir: – “Tomara que a gente tenha sorte e que o Corcunda se encontre na Catedral quando lá chegarmos!”. O vexado esposo sequer dirigiu-lhe o olhar.

Essas histórias concedem um sabor todo especial às viagens. Elas, as viagens, por si só presenteiam-nos com bens maiores: as diferentes culturas, o conhecimento, a vivência que permanecem indeléveis em nossas memórias, patrimônio que marginal algum há de violar, Banco algum há de tomar, traça alguma há de corroer.

Minha amiga, Maria da Graça, tal lendária argonauta, desbrava os mares mais longínquos e as milenares aldeias universais minimamente três vezes ao ano.Ela guarda incontáveis histórias para contar, histórias que transformam as minhas em simples passeio de catamarã entre Porto Alegre e Guaíba no domingo de sol, no domingo cristão, num domingo universal…

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