A visita de minha avó – Sergio Agra

O passado nunca morre. Nem sequer ele é passado.

Minha avó depois de muito tempo veio nos visitar na véspera do domingo da Páscoa deste ano. Como em todos os momentos e circunstâncias de sua vida ela chegou sem qualquer alarde. Silenciosa. Minha avó me trouxera um urso de pelúcia marrom e para minha mãe um broche de ametista. Encabulado, pensei em lhe dizer que eu próprio já era um circunspecto avô e a mulher ao meu lado não era minha mãe. Complacente, preferi me calar e acomodei-lhe a bagagem na sala de estar.

Como eu transformara um dos dormitórios em biblioteca e escritório, fiz questão de que ela se acomodasse em nosso quarto. Quanto a mim e minha companheira nos arranjaríamos do jeito que desse no espaçoso sofá da sala de estar. Agradeceu-me afirmando ser infundada minha preocupação, e sem admitir objeção informou que trazia consigo seu catre.

Incrédulo com o que acabara de ouvir meapressei em juntar os calhamaços displicentemente jogados sobre o tapete que revestia o gabinete de estudos. Reuni-os num único e oscilante monte e os acomodei sobre o deck do computador.

Quedei-me atarantado ao vê-la retirar da antiga mala de couro de crocodilo uma delicada caixa que lembrava em tamanho e forma um kit para acondicionar finíssima baixela de talheres. Com a maestria das magas milenares, minha avó transformou o estojo em confortável e inusitado leito. Auxiliei-a nos arranjos das mantas e dos lençóis.

Após acomodar-se no fantástico catre ela prometeu para a manhã seguinte levar-me até a sala de aula que fora sua na Escola Normal. Desejava apresentar para as colegas e para as alunas o neto que havia “aprontado” tudo o que um moleque traquinas tivera direito na noite em que ela se despedia após mais de quarenta anos de magistério.

Ante as recordações ela esboçou o mais suave dos sorrisos e como se estivesse falando para si mesma rememorou, “Ah, este guri aprontou cada uma… Não mudaste em nada desde aquela festiva noite, lembras..”.

Após a solenidade, ainda no auditório da Escola Normal, Vó Dorala me avistou à sua frente. Agradeceu o buquê de flores-do-campo que eu lhe estendera e quis saber o que estava tramando desta feita. Eu já dava mostras, em que pese meus cinco anos recém-completados, de ser um fedelho por demais perspicaz. Perfilado perante minha avó disse-lhe que iria ler um discurso que eu mesmo redigira. A avó mostrando mais do que surpresa, incredulidade, me desafiou: “Discurso? Mal sabes as primeiras letras!” Ato contínuo, levei o dedo indicador entre as sobrancelhas, “E a minha inteligência, vó? Ela é um lápis azul, do tamanho de uma bolita de gude!”.

Vó Dorala achou graça. Sabia muito bem que eu era inventivo, próprio de um futuro ficcionista, quem sabe ou, o pior a avó benzia-se , de um político falastrão e contador de história, hábil nos argumentos e promessas de campanhas. Absurda, no entanto, minha definição de inteligência. Minha avó beijou-me a fronte com ternura e, após dar meia-volta, disparei rumo ao palco.

Diante do microfone ainda conectado me pus a transmitir em meio a pachouchadas uma fantástica carreira de potrancas em cancha reta, ouvida por uma constrangida avó e por todos os que ainda circulavam pelo recinto.

Envergonhado ante a sagaz lembrança por ela provocada, desejei-lhe uma noite de sono reparador e me dispus a sair, não sem antes fechar a porta.

A voz tímida e sussurrante como a de uma menina assustada se fez ouvir: “Não consigo dormir com portas fechadas e sem que haja uma réstia de luz. Assim sei que não estou sozinha…”.

Comovido com a fragilidade daquela mulher me questionei: – “Como poderia ela, sozinha, viver naquele imenso casarão, o pé direito de seis metros, cuja fachada principal vai de uma esquina a outra, com esses fantasmas que lhe assombram as noites?”.

Custei a conciliar o sono. As horas que antecederam o amanhecer foram povoadas pelos meus bruxos e duendes. As luzes primeiras do ensolarado Domingo de Páscoa me encontraram desadormecido. Sem me importar com a friagem do piso de encontro aos meus pés descalços apressei-me em saber como se encontrava minha avó. A porta do gabinete estava levemente entreaberta, tal e qual eu a deixara na noite anterior. Aos poucos, sem qualquer ruído, fui abrindo-a.

Na biblioteca vazia apenas jaziam sobre o tapete, displicentemente jogados, meus livros, jornais, revistas e folhas de ofício.
Tranquila, sem alarde, ela arrumara os de seu e se fora embora, no mesmo silêncio e sem qualquer lamento com que partira para a viagem de retorno a Nossa Casa…

… no amanhecer de um sábado de primavera do ano de 1963… MUITO.

Comentários

Comentários