Carlos F. Jungblut

Poucas semanas atrás foi divulgado o premio Nobel de medicina.

Logo aviso, não sou oncologista. Mas assim que li os estudos fiquei animado e esperançoso. Apesar da importância do assunto, ele acabou ofuscado pela ferrenha discussão política que ocupa nossa sociedade por esses dias. Mas dessa vez não podemos deixar passar em branco. Muita expectativa foi criada!

Abordando novas perspectivas para o tratamento do câncer, doença que se mostra atemporal e dramática, a chama trazida pelos pesquisadores precisa ser compartilhada. Quem vivenciou familiares, amigos ou a si próprio fragilizado por esta doença tem motivos para celebrar um futuro melhor.

Quando pensamos no tratamento, a quimioterapia e a radioterapia convencional são fundamentais, trazendo melhora da sobrevida e cura em inúmeros pacientes vitimados pela doença. Os efeitos adversos, entretanto, assim como eventuais falhas terapêuticas, associados aos altos índices de neoplasias na população em geral, tem clamado por novas terapias.

Em busca de outras soluções, a engenharia genética, o estudo aprofundado do funcionamento celular e das células doentes tem trazido descobertas revolucionárias que ultrapassam o campo teórico e já são ferramentas terapêuticas atuantes no tratamento.

A chamada “Terapia Alvo” (molecularly targeted therapy) baseia-se em ligação do medicamento direto a proteínas e enzimas que existem exclusivamente na célula cancerígena – permitindo assim atuação diretamente sobre essa – ou ainda mostrando ao sistema imunológico que esta célula deve ser “caçada”…
Os pesquisadores James Allison (EUA) e Tasuko Honjo (Japão), laureados deste ano, apresentaram descobertas simplesmente maravilhosas sobre a influência do sistema imunológico no controle das células anormais.

O tratamento das neoplasias é vasto, até porque os tipos da doença são muito diferentes, e os médicos lançam mão de cirurgias, hormônios, transplantes, radio e quimioterapias e medicações de ultima geração.

A importância do sistema de defesa do organismo contra estas células doentes sempre foi motivo de estudos, e as tentativas de ativação do sistema imune para ajudar no tratamento são interessantes, como no uso do Bacilo de Koch (tuberculose) para tumores de bexiga, método utilizado na medicina atual.

Ganhadores do premio Nobel de Medicina

Mas como isso funciona? Como podemos estimular nosso sistema imune para atacar as células cancerígenas?

Dr Allison, da Universidade da Califórnia, observou que uma proteína (CTLA-4) das células T (linfócito de defesa) freia a atuação do sistema imune. Utilizando anticorpos que bloqueiam esta proteína, ele conseguiu em experimentos a cura de câncer em ratos. Com o sucesso dessa pesquisa, seguiram para terapêutica em humanos e conseguiram resultados inéditos no tratamento de pacientes com tumores avançados de pele (melanomas).

Dr Tasuku, da Universidade de Kyoto, descobriu outra proteína (PD-1) que, assim como a CTLA-4, atua bloqueando o funcionamento das células de defesa linfócito T. Após resultados marcantes bloqueando a ação desta proteína em tratamentos experimentais, foram apresentados estudos de sucesso em vários tipos de câncer, como tumor de pulmão, tumor renal, linfoma e melanoma.

A nova terapia imune, que ganha destaque no prêmio Nobel, atua ativando o mecanismo imune diretamente, estimulando que o mesmo aja sobre as células cancerígenas, que nem deveriam existir.

Ainda existe um espaço enorme para pesquisa, redução de efeitos colaterais e opções terapêuticas para diversos tipos tumorais diferentes, mas o que mais chama a atenção é a velocidade com que as pesquisas tem evoluído. A gama de novos tratamentos tem oferecido sobrevida e qualidade de vida para os pacientes. Embora os tratamentos ainda sejam caros, a vida não tem preço! Além disso, muitos podem ser obtidos pelo SUS e Saúde Suplementar (convênios), e a experiência mostra que os preços baixam rapidamente quando a demanda é grande e novas opções surgem com rapidez.

Neste momento, nos cabe comemorar estas boas noticias e torcer pelo sonho da cura de todos os casos de câncer, a ponto de não sentirmos mais o sofrimento em cada vez que falamos ou escrevemos esta palavra.

Carlos F. Jungblut
Médico Ortopedista
Mestre em Cirurgia pela UFRGS
Atual Presidente da Sociedade Gaúcha de Ortopedia e Traumatologia (SBOTRS)

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