Balada para um andarilho – Sergio Agra

BALADA PARA UM ANDARILHO

“A literatura não é algo que nos faça felizes,

porém, ajuda-nos a defendermo-nos da infelicidade.”

Mario Vargas Llosa

    PRELÚDIO – Capítulo I

…ao assumir a presidência se comprometeu…

 Imóvel à soleira da porta de acesso do bucólico e arejado albergue, todo ele construído em pedras, o menino esforçava-se por parecer o mais natural possível. Eu próprio não conseguia dominar a emoção que fremia em meu ser pronta para explodir a qualquer momento. Bastaria um único gesto, uma única palavra para que isso tudo viesse à tona.

Aleph assim se chamava o rapaz —, na singela espontaneidade e na verdade em que se apoiam as manifestações de afetos ainda juvenis,à minha aproximação, adiantou-se em dois ou três passos, abriu os braços, me envolveu num abraço que me parecera infinito e expressou tudo o que em treze anos havia entesourado no espírito. Suas palavras foram tão surpreendentes que, num primeiro momento, sequer eu soube o que lhe responder… 

Hermes,hermes gomes aguillera. Este é meu nome.

Após trinta anos, muito mais do que o sonho que acalentei por uma existência inteira, somente agora inicio a execução da promessa que fizera àquele belo e vigoroso garoto que me aguardava na soleira da porta de acesso da pousada com visível inquietude, ansiedade diria, até, com inusitada desconfiança e injustificável temor —, demonstrados no seu semblante sério que logo se desfez no largo sorriso com que me presenteou. 

Sim, ainda vivo em são thomé das letras. É nítida minha lembrança do espanto, quase um susto, quando cheguei pela primeira vez nesta cidade. Ao mesmo tempo foi com encantamento que deslumbrei as construções com mais de duzentos anos erguidas apenas com pedras apoiadas uma sobre a outra. Essas casas foram muitas delas transformadas em restaurantes, lojas e pousadas como a estação das estrelas, que adquiri juntamente com maria clara e dirigimosaté há dois anos, quando ela partiu para a grande viagem de retorno à pátria espiritual. Hoje quem a administra é anahy,uma órfã indígena que adotamos quando a indiazinha era ainda criança.

São thomé das letras é um vilarejo de pedra cercado por lendas, mitos, cachoeiras, grutas, anjos e, segundo os índios, onde viveu um santo a quem chamavam de sumé. Os colonizadores acreditavam que sumé fosse mesmo o santo católico chamado são tomé. As letras de são thomésão inscrições gravadas nas grutas, no tempo em que aquele sertão ainda era mar. Quem as escreveu foram seres espaciais, descendentes dos atlântidas, moradores da cidade subterrânea existente na profundeza da gruta do carimbado. Contam que esta gruta vai dar em machupichu, no peru. Quem tenta conferir, não volta mais. 

Quando aqui cheguei, num cálido e radioso entardecer de setembro do ano de 1984, o brasil se preparava para deixar os trevosos anos do regime de exceção. O general ernestogeisel ao assumir a presidência havia se comprometido a por um fim definitivo às perseguições políticas e prisões seguidas de torturas e assassinatos, como eram rotina no governo de seu antecessor, garrastazumédici, e dar início ao projeto de distensão lenta, segura e gradual. Seu sucessor, o também general joão figueiredo, concluiria o processo.

Teriam eles, geisel e figueiredo, dito a verdade?…

Somente no ano de 1988 foi promulgada uma nova constituição. Com o passar dos anos e a evolução social, direitos até então inimagináveis o da relação estável entre pares não casados entre si, o direito ao espólio pelo parceiro sobrevivente na relação homoafetiva, a oficialização do casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo, o reconhecimento do direito destas à adoção de filhos, o uso do nome social em documentos de identidade dos transgêneros haveriam de ser reconhecidos.

Constituiu-se a comissão da verdade com o intuito de banir todas as culpas e sequelas deixadas pelos anos de chumbo. Aos pouco os escaninhos dos serviços de inteligência à disposição do regime de exceção foram desvendados. Aos olhos estupefatos dos familiares dos desaparecidos eis que fora extraída das profundezas abissais a famigerada casa da morte, nome pelo qual era conhecido um centro clandestino de tortura e assassinatos criado pelos órgãos de repressão. A casa ficava localizada na rua arthur barbosa, 668 —identificada pelos militares pelo nome de “codão” —no alto de um morro do bairro caxambu, na cidade de petrópolis, estado do rio de janeiro, de propriedade do empresário alemão mario lodders, um simpatizante da ditadura militar que a cedera ao exército. Na casa diversos presos políticos foram torturados e assassinados por militares no decorrer dos anos 1970, fato que só se tornou conhecido devido às denúncias da única sobrevivente, a militantecomunista, guerrilheira e dirigente da organização de extrema-esquerdavar-palmares, inês etienne romeu, cativa, estuprada e torturada por mais de três meses naquele local antes de ser jogada numa rua do subúrbio do rio de janeiro quase morta, mas sobrevivendo para contar a história.

No ano de 1985, ainda sob a égide da constituição de 1967, a eleição presidencialseriaa última ocorrida de forma indireta, por meio de um colégio eleitoral. Tancredo de almeida neves, eleito, sequer tomou posse. Com a morte de tancredo neves, assumiu a função o seu vice, josésarney.

Restabelecido o regime democrático de direito somente o tempo incógnito e ainda trevoso teria o condão de dizer às gerações vindouras que futuro estaria reservado à nação. O povo o trabalhador, o cidadão honesto e respeitador das leis e das instituições sequer poderia imaginar quenum porvir nem tão distante o brasil iniciaria, moral e eticamente, a rolar ladeira abaixo… 

Hoje, à sombra da densa vegetação e da mata nativa que circunda a cachoeira da lua, a sete quilômetros de são tomé das letras, tendo às mãos o imenso caderno com quinhentas folhas, presas em espiral, rabisco as primeiras linhas da história que aleph no dia do nosso primeiro encontro havia instado que eu contasse.

A paz e o silêncio deste bucólico recanto a alta temporada de turistas ainda está distante são elementos fundamentais às remembranças que aos poucos vou eternizando nas alvas folhas do caderno.

Comentários

Comentários