Nos anos 1970 Van Rensselaer Potter cunhou o neologismo Biethicsno artigo Bioethics: Bridge tothe Future(Bioética: uma Ponte para o Futuro). É uma busca contínua por sabedoria.

É uma ponte para chegar com segurança a um futuro ameaçado pelo progresso científico e tecnológico que avança numa velocidade estonteante e não pode se dissociar do equilíbrio ecológico do planeta. Já tivemos experiências trágicas nesse sentido: Londres com seu fog contaminado por poluentes, os mesmos que tornam irrespirável o ar nos pontos mais críticos da China e o pior do pior: Hiroshima e Nagasaki.

O antropocentrismo – o homem como o centro de tudo- que domina o nosso planeta necessita se encaminhar na direção de uma “bioética global”. Temos a obrigação de compatibilizar o conhecimento com a ecologia, sem descuidar da herança que deixaremos para as gerações futuras.

O advento das máquinas e mais recentemente o grande salto representado pela cibernética, pelos algoritmos, pela computação e seus derivados nos abre a perspectiva de libertar o homem dos trabalhos braçais – mais eficientemente executados por ferramentas – e permitir que desenvolva seus atributos mentais cada vez mais sofisticados e, esses sim, isentos dos liames que ameaçam frear a escalada, escalada que não permite sequer vislumbrar para onde nos levará. Se formos inteligentes o suficiente para nos desviarmos dos atalhos chegaremos ao ponto onde os nossos descendentes atingirão o ideal de uma vida prazerosa, socialmente distribuída de uma forma que TODOS possam dizer: VALE A PENA VIVER!

A pergunta que devemos responder: “como podemos combinar o progresso da ciência com a herança humanista, de forma que beneficie os indivíduos em particular e a sociedade como um todo”? A resposta representa uma ponte para o futuro capaz de unir o progresso, a tecnologia e a sobrevivência da espécie humana.

Duas correntes filosóficas encaram o futuro de maneira divergente: os BIOCONSERVADORES temem que a escalada irrefreável do conhecimento possa trazer danos aos valores essenciais a seres preocupados em manter a moralidade e o humanismo. Julian Savulescu, diretor do Oxford Uehiro Centre for Pratical Ethics, centro britânico para temas e pesquisas em ética prática é um defensor do “imperativo moral em ética prática do melhoramento humano”. O futuro da humanidade depende de como isso será construído para usufruto de toda a humanidade.

O TRANSHUMANISMO aponta para a aplicação dos diferentes recursos à disposição ou em vias de ocorrer – nanotecnologia, recursos médicos, inteligência artificial, robótica, bancos de dados, manipulação do DNA humano e a expectativa de vida para limites hoje quiméricos – no sentido de tornar a vida não apenas prolongada, também exuberante e prazerosa.

Para tanto aceita inclusive a interação homem-máquina com a inserção de componentes biônicos aliados à cibernética. Órgãos artificiais já estão disponíveis, impõe-se necessária sua miniaturização que possibilite sua inserção incorporada ao corpo, um passo decisivo para o sucesso. Como afirmou Júlio Verne: “tudo o que um homem pode imaginar, outro homem realizará”.

O TRANSHUMANISMO representa a realidade atual, na qual o homo sapiens pode reprojetar a si mesmo a fim de superar seus limites biológicos.

O POSHUMANISMO representa o estágio final dessa interação, o de chegada. Uma integração perfeita entre o homem e a máquina, a inteligência artificial e o ser humano. Os limites entre o homem e a máquina serão diluídos nos direcionando ao ponto em que nos transformaremos em ciborgues, ressaltado que esse estágio final é uma possibilidade tão remota que não podemos afiançar será alcançada, e se o for, quando ocorrerá.

O homem do futuro agregará, sim, cada vez mais componentes cibernéticos até um limite que, atualmente, sequer podemos imaginar. Órgãos serão totalmente artificiais ou obtidos a partir de células originais multiplicadas em laboratórios. O rim construído a partir de células não afetadas por um câncer para ser implantado no organismo do doador já estánolimiar de ser oferecido e o mesmo ocorrerá paulatinamente com os demais órgãos.

Os transplantes significaram um avanço espetacular, porém, a necessidade de doadores humanos e o uso de imunossupressores como a ciclosporina ainda são entraves, isso não ocorrerá quando células do próprio paciente forem utilizadas. Prescindiremos imunossupressores, nada de efeitos colaterais, nada de rejeição. Principalmente, e isso será vital, descartará impedimentos morais e filosóficos.

“A CIÊNCIA NÃO É TRABALHO, É UM EXPERIÊNCIA ÉTICA, APAIXONADA E CRIATIVA” (Van Rensselaer Potter, criador do neologismo “bioética”).

O agregar, tornando indissociáveis os avanços científicos e a bioética, de certo modo ajusta um freio para regular a velocidade e a profundidade do progresso e evita uma corrida desenfreada rumo ao desastre representado por um maior distanciamento entre os muito ricos e os miseráveis, poderá, ao contrário ser distribuído a TODO Se desta forma conseguir harmonizar dois fatores aparentemente incompatíveis: o humanismo, que eleva o homo sapiens a um nível acima do materialismo – este apenas busca o hedonismo – com a evolução universal, meta e destino da espécie.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

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