Quando a noite caíra em pleno dia sobre Porto Alegre e o temporal de chuva e vento se desencadeou,Aleph estava por completar quatro anos de idade. Pesadas nuvens cobriram os céus e obrigaram os moradores a manterem acesa a chama das lamparinas como se noite fosse. Vindo do rio, um vento intempestivo e mormacento invadira em remoinhos os becos e as ruas da0 cidade, fazendo bater portas e janelas, arrebatando dos varais e das cercas as roupas postas a secar nos pátios, erguendo as saias pregueadas das normalistas e lhes desmanchando o caprichoso penteado.O vento espargia as cinzas do incêndio que revoltosos haviam provocado nos estúdios da emissora de rádio situada nos altos do antigo Viaduto. Essa estranha ventania que havia causado às pessoas um agourento presságio de fim do mundo convergira para a Praça defronte a Catedral, onde já se providenciavam os preparativos para a solene Missa de Réquiem ao Caudilho que nas primeiras horas daquela madrugada saíra da vida para definitivamente entrar na História.

Desde então, na semana que precede a data do aniversário de Aleph, a paisagem de Porto Alegre se transforma: o céu adquire uma tonalidade pardacenta, carregado de nuvens plúmbeas, como que se abaixassem e intencionassem afogar a terra. As luzes são acesas dentro das casas e o vento abafado domina todos os recônditos da cidade até concentrar-se no obelisco da Praça da Igreja Matriz.

Aquele não seria para Aleph um alvorecer diferente dos que a contar dos quatro anos anunciavam a data de seu jubileu não fosse o do ano último do milênio primeiro. Aleph — vencida a perturbada e mal dormida noite em que se revirou entre os lençóis amarfanhados em consequência do implacável assalto de fantasmagóricas visões, não sei se pela aterrorizante superstição suscitada pelos incautos que profetizava para dali a quatro meses o Apocalípse, em consequência da irrecorrível e definitiva varredura de todo e qualquer vestígio dos seres vivos do planeta quando da chegada do Século XXI.

Houve quem buscasse ao preço estratosférico do peso de ouro os serviços e a intersecção de uma Yalorixá—conhecida pela suntuosidade megalômana de seus vinte Templos localizados no Bairro do Lami, dos quais se destaca uma pirâmide de vinte e um metros de altura—perante Oxalá, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iemanjá, Oxum e Iansã, os Sete Orixás Cósmicos.Beatos e fariseus, contritos, acenderam velas e rogaram aos santos de sua devoção que os advogassem perante o Todo-Poderoso pelo perdão às suas faltas.Dissimulados, submeteram-seao suplício de galgarem de joelhos os noventa e sete degraus das escadarias do adro da Igreja Nossa Senhora das Dores ou percorreram os 30 km que separam o Centro Histórico de Porto Alegre do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, localizado na cidade de São Leopoldo, onde se encontra o túmulo do Padre João Baptista Reus, a quem atribuiam o dom de milagreiro. Os judeus, a cabeça devotamente coberta pela Kipá e os ombros pelo Talit, reuniram-se nas sinagogas em fervorosas preces a Jeová.Os mulçumanos por sua vez recobriram suas cabeças com o Taqiyah, obedecendo as posições ditadas pelo Alcorão quando das orações a Alá.

O Século XXI, como todas as Eras passadas, ao soar dos sinos nos campanários e do fascinante esplendor dos fogos de artifício que desenharam nos céus a diversidade de efeitos como a chuva multicolorida de estrelas, cometas, crisântremos, crakers e chorões anunciando a passagem da meia-noite do 31 de dezembro, irromperia radioso, trazendo consigo o indelével ciclo de renovação das esperanças.

Os crédulos dos “poderes” da Mãe-de-Santo constataram— não obstante as dívidas contraídas com cartões de crédito ou com empréstimos consignados e o saldo do cheque especial em vermelho quase roxo após honrarem o pagamento dos “honorários” da aludida sacerdotisa— que o mundo,independentemente dos credos e das religiões, das rezas, das lamentações, das curvaturas e dos ebós, permanecera “vivo”.Fora neste momento que Alephtomou a categórica decisão de deixar Coimbra e retornar ao Brasil.

Posso dizer, sem pejos de vaidade, que em muito contribuí para tal propósito.

No sábado primeiro do Novo Século Aleph reviu a sua Porto Alegre. Nosaguão de mármore róseo do imponente prédio da Casa de Cultura, com estilo arquitetônico onde predominavam elementos neoclássicos, o irado cineasta Jorge F., após dispersar os curiosos coadjuvantes, transformou aquele espaço em lúgubre set de filmagem. F. dirigia o filme cuja trama narrava a história de um amanuense que fora mordido por seu próprio grampeador. Nas noites de plenilúnio o escrevente, munido de inusitada e gigantesca réplica daquele material de escritório, percorria as cercanias da Rua Pantaleão Telles espetando-o no pescoço das prostitutas.

Corrido que fora pelo tresloucado diretor de cinema, Aleph subiu a Rua Clara. Na platibanda da escadaria que liga aquela alameda à Rua do Arvoredo, sob a intensa luz de uma Lua Cheia, ele vislumbrou dezenas de mulheres vestindo longas túnicas que lembravam as vestais dos templos dionisíacos. Lá embaixo, sob a clareira do pequeno bosque de azaléas, sete magas entoavam cânticos cabalísticos em torno de imenso caldeirão:

—”Quatro vezes por ano somos vistas, no retorno dos grandes Sabbats, no antigo Hallowen e em Beltane, ou dançando em Imbolc e Lammas. Dia e noite em tempos iguais vão estar, ou o Sol bem mais perto ou longe de nós. Quando, mais uma vez, Bruxas a festejar, Ostara, Mabon, Litha ou Yule saudar. Treze Luas de prata cada ano tem, e treze são os Covens também. Treze vezes dançar nos Esbaths com alegria, para saudar a cada precioso ano e dia”.

Da beirada do promontório, já na madrugada, Aleph avistou a bordo depequenas embarcações os cem rebeldes que atravessaram o Rio Guaíba, na altura do Porto das Pedras Brancas, sem que a canhoneira imperial percebesse a manobra.

Jorge F. tudo documentava.

Comentários

Comentários