O terreno baldio ficava ao lado de casa. Nós chamávamos de “campinho”. Ali erguemos as goleiras e, como tecelões, produzimos as redes. Surgiu assim “estádio” do quase imbatível Real Futebol Clube, glorioso alvinegro inspirado nas cores do Santos, de Pelé.

Porto Alegre naqueles idos, principalmente nos Moinhos de Vento, possuía vários terrenos baldios, e o “campinho” era uma espécie de quintal, uma extensão das nossas casas. E lá no fundo, bem no canto, aproveitando a parede da casa visinha, Cafuncho, Zeno, Xerife e Gambá dividiam uma maloca. Jogados à própria sorte, porém, a ninguém ameaçavam. Apenas pediam aos passantes um trocado para a cachaça, ou batiam às portas das casas e dos apartamentos dos arredores em busca de sobras de comida e um pouco de café.

Gambá, que também engraxava sapatos, ganhou o apelido não pelo que bebia — e não era pouco! —, mas porque surgira no bairro trazendo sobre os ombros o próprio animal, o gambá, de quem não se separava. Furor mesmo ele fazia quando lhe roubavam a caixa que usava para lustrar os sapatos. Bastava um descuido e, quando percebesse, lá estava a caixa do seu mísero ganha-pão pendurada numa árvore, inatingível para ele, não pela altura, mas pelo seu estado etílico que lhe impedia qualquer escalada.

Quem mais infernizava a vida de Gambá era, ironicamente, seu afilhado, o moleque Adão, também engraxate. Com destreza e sem acanhamento, incitado pelo pessoal ávido em ver um “espetáculo”, às vezes por um trocado, furtava a caixa do padrinho. A rua parava diante do escândalo promovido por Gambá. Logo se formava uma roda de passantes em torno de Gambá, que ora pedia socorro a um, ora a outro, suplicando que lhe resgatassem a caixa. Quando percebia que não seria atendido, a todos insultava com palavrões. Ou investia contra os circunstantes, buscando agredi-los com socos e pontapés, que restavam perdidos no ar, pois a ninguém acertava. E o pessoal chegava ao delírio, porque era o desatino do pobre homem, por jocoso, o que todos buscavam ver.

Lembro-me de Gambá e de seus amigos de infortúnio todos os dias quando entro ou saio da minha rua, que é pequena e sem saída, e vejo um casal com uma criança ainda de colo há meses acomodada debaixo de uma improvisada lona preta de plástico, em um recuo nos fundos de um posto de gasolina. Eles não têm um “campinho” para construírem uma maloca, porque a cidade aos poucos foi tragando os espaços. Resta-lhes uma lona, um lugar debaixo de uma marquise, de uma ponte ou viaduto. E eu, incapaz, tenho a certeza de que este infausto país, definitivamente, jamais terá solução.

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