Sérgio Agra Notas Dissonantes por Sérgio Agra "A crítica com transparência e responsabilidade. A visão do homem sob a ótica do humano, demasiado humano".

A visita de minha avó

23/04/2014
Minha avó, depois de muito tempo, veio nos visitar. Como em todos os momentos de sua vida, ela chegou sem qualquer alarde, silenciosa.

Ela me trouxe um urso de pelúcia marrom e, para minha mãe, um broche de ametista. Encabulado, pensei em lhe dizer que, eu próprio, já era um circunspecto avô e a mulher ao meu lado não era minha mãe. Complacente, preferi me calar e acomodei-lhe a bagagem na sala de estar.

Como transformamos um dos dormitórios em biblioteca e gabinete de estudos a convidei a se instalar em nosso quarto. Quanto a nós, ficaríamos acomodados, como desse, no sofá da sala. Agradeceu afirmando ser infundada nossa preocupação, e sem admitir objeção, informou que trazia consigo seu catre.

Mesmo incrédulo, apressei-me em ir à biblioteca e juntar livros, jornais, revistas e folhas de ofício, displicentemente jogados sobre o tapete. Reuni-os num único monte, ainda que desordenadamente, e os acomodei num das prateleiras da estante.

Ainda apalermado, tal bicho do mato, avesso às soluções mais práticas, quedei-me a vê-la retirar da mala de antigo couro de crocodilo, uma delicada caixa de madeira. Esta lembrava, em tamanho e forma, um kit para guardar talheres. Com a maestria das milenares magas, minha avó transformou o estojo em confortável e inusitado leito. Auxiliei-a nos arranjos das mantas e dos lençóis.

Após acomodar-se no fantástico leito, prometeu, para a manhã seguinte, me levar até a sala que fora sua na Escola Normal Pereira Coruja. Desejava mostrar às colegas professoras e alunas o moleque que aprontara na noite em que ela se despedira após cinquenta anos de magistério. Ante a lembrança, ela esboçou o mais suave dos sorrisos, como se pensasse, Esse guri faz cada uma... Não mudou em nada, desde aquela festiva noite.

O auditório da Escola Normal, apesar da chuva torrencial, encontrava-se superlotado. Quase toda a comunidade fora homenagear minha avó. Aos retardatários restou se acomodarem nos corredores. Para que todos os presentes pudessem ouvir os discursos, instalaram-se alto-falantes.

Após a solenidade, minha avó veio ao meu encontro.  Agradeceu-me o buquê de flores-do-campo com que lhe presenteara e quis saber o que eu estava tramando desta feita. Apesar de meus cinco anos recém-feitos, mostrei coragem: ia ler-lhe um discurso que eu mesmo fizera. Minha avó expressou mais do que surpresa, incredulidade, Discurso? – dissera ela – mal sabes as primeiras letras! Apontei o indicador entre as sobrancelhas, E a minha inteligência, vó? Ela é um lápis azul, do tamanho de uma bolita. Ela achou graça. Sabia muito bem que eu era inventivo, próprio de um futuro ficcionista, quem sabe, de um político falastrão e contador de história, hábil nos argumentos e promessas de campanhas. Absurda para ela, no entanto, a definição de inteligência que acabara de ouvir. A antiga professora me beijou com ternura a testa. Após, dei meia-volta e disparei para o palco. Sem o saber, o microfone ainda conectado, me pus a transmitir, em meio a pachouchadas, uma fantástica carreira de potrancas em cancha reta.

Encabulado, desejei-lhe uma noite de sono reparador e me dispus a sair, não sem antes fechar a porta. A voz tímida e sussurrante, como vinda de uma menina assustada, se fez ouvir, Não consigo dormir com portas fechadas e sem que haja uma réstia de luz. Assim sei que não estou sozinha...

Comovido com a fragilidade daquela mulher me questionei: Como poderia ela, sozinha, viver naquele imenso casarão, o pé direito de seis metros, cuja fachada principal vai de uma esquina a outra, com esses fantasmas que lhe assombravam as noites?

Custei a conciliar o sono. As horas que antecederam o amanhecer foram povoadas pelos meus bruxos e duendes. As luzes primeiras do dia me encontraram desadormecido.
Sem me importar com a friagem do piso de encontro aos meus pés descalços, apressei-me em saber como estava minha avó. A porta estava levemente entreaberta, tal e qual a deixara na noite anterior. Aos poucos, sem qualquer ruído, fui abrindo-a. A biblioteca estava vazia, sobre o tapete, jaziam, displicentemente jogados, meus livros, jornais, revistas e folhas de ofício.

Silenciosa, sem alarde, ela arrumara os de seu e partira.

No mesmo silêncio e sem qualquer lamento que partira num amanhecer de setembro de 1963.

Sérgio Agra
agraeagra@terra.com.br
Advogado e escritor – Autor do livro “Mar da Serenidade”

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