Jorge Vignoli O outro lado da história por Jorge Vignoli A história também contada sob o seu ângulo politicamente incorreto.

Da série “A Praça Júlio de Castilhos e aTurma do Murinho”

09/04/2014
Ely foi empregado do Bar da Praça Júlio durante muitos anos. Serviu aos sucessivos proprietários, como Pedrinho Sommer, os portugueses Antônio, Davi, Orlando, Paulo e Manoel.

Ely era um homem de baixa estatura. Ele atendia ao balcão, preparava os sanduíches que iam para as mesas, servia o chope e, se o movimento permitisse, levava nas residências as encomendas dos fregueses que moravam nas redondezas.

Talvez o Bar da Júlio tenha sido uma das primeiras tele-entregas da cidade, embora restrita à órbita dos moradores da Praça. Não era serviço efetivo ou anunciado, mas deferência que os proprietários do Bar ofereciam aos fregueses fiéis.

Alírio Noronha, que morava no prédio ao lado do Bar da Júlio, junto com Vilfredes Barbosa, costumava ligar para o Bar apenas para fazer seus trotes:
— Alô, “Seu” Antônio?

— Sim — respondia o português.

— Aqui é do apartamento do Doutor Rosa. — (Doutor Rosa morava no edifício Plaza, em frente ao Bar da Júlio) — Haveria a possibilidade de mandar uma encomenda?

— Sim, com prazeire!

— Anote: quatro pães de sanduíche, oitocentos gramas de presunto e queijo; três pacotes de manteiga, oito Brahmas, doze Cocas-Colas e dois pacotes de Continental. Troco para quinhentos, certo?

— Em seguida, só o tempo de fatiar os frios.

Barbosa e Alírio iam para a janela do apartamento esperar a saída do Ely para a entrega. Em seguida, aparecia o baixinho com balaio apoiado no ombro e, feito burro de carga, dirigia-se ao destino da encomenda.

Não tardava muito, voltava o baixinho com a encomenda e todo peso nas costas, rechaçado pela família escolhida pelo trote.

A dupla aguardava um momento, e repetia o telefonema:

— Seu Antônio, esqueceu a encomenda?

— Eu mandei a mercadoria, faz dez minutos, mas disseram que nada haviam pedido!

— Mas para qual o apartamento o senhor mandou?

— Para a casa do Doutori Rosa!

— Mas é para o apartamento do “Seu” Campos. — (O apartamento do Doutor Rosa ficava no 6º e do “Seu” Campos no 3º andar do Plaza).

— Raios, eu entendi que era para levari os pedidos ao Doutori Rosa... O Ely vai novamente.

Lá ia Ely; e voltava Ely, com a mercadoria, vergado, como se carregasse o peso da vida nos ombros, enquanto os dois trocistas se danavam em rir com a crueldade levada a cabo.
Jorge Vignoli
vignoli@ako.com.br
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