Notas Dissonantes por Sérgio Agra
"A crítica com transparência e responsabilidade. A visão do homem sob a ótica do humano, demasiado humano".
Sérgio Agra
agraeagra@terra.com.br
Advogado e escritor – Autor do livro “Mar da Serenidade”




»Comentários
Na verdade, Saramago tem questões não resolvidas com a Igreja. É a força do inconsciente. Quando menino estudou interno no Mosteiro Beneditino, de Leiria. A partir daí, já atacava a Igreja num jornal da escola, que lhe valeu a expulsão do educandário. Note-se que a sua crítica religiosa se limita, de forma enfadonha, somente conta a “Santa Madre”. Embora anticristão e ateu – assim se dizia – nenhuma censura fez contra o protestantismo, as igrejas pentecostais, e, particularmente, conta islamismo xiita. Não, seu alvo é contra o clero católico. Seu texto é monótono, sem parágrafos e diálogos, num amontoado enfadonho de frases que perde, ao longo da narrativa, o enunciado inicial. Dir-se-ia uma imitação – nem barata, mas “lusitana” – de Jaime Joyce.
Corroboro com a opinião do cronista. Ao longo de sua obra Saramago realiza uma reflexão crítica sobre a constituição histórica da identidade nacional portuguesa. Para Saramago tudo pode e deve ser discutido, desde os mitos fundadores das civilizações ocidentais à "historiografia oficial", que são colocadas em cheque com a proposta de uma nova leitura do passado, numa tentativa de contrapor às representações acríticas das instituições dominantes, a sua representação ficcional, não com o intuito de alterar o passado, mas de recuperar no passado aqueles elementos que são prenúncios de um futuro imune à influencia deletéria das estruturas de poder do Estado e do catolicismo sobre a identidade nacional. Na sua sede de identidade nacional, uma nacionalidade ficcionalmente imaginada, é que se realizam os ideais de igualdade humana do autor, ainda mais porque a globalização tem, de um lado, solapado os direitos sociais de um contingente imenso de seres humanos dispersos pelo planeta, e de outro produzido o indivíduo atomizado que se imagina como um ser independente destinado a se locupletar através do consumo. Saramago, como poucos, na sua literatura capta esta dura realidade. Parabéns ao cronista por trazer nestas páginas, de forma acessível, tão significante escritor.
Senhor Sérgio, na minha modesta opinião Saramago e Eça são os maiores expoentes da literatura da língua portuguesa. De Saramago li "O ano da morte de Ricardo Reis", "O evangelho segundo Jesus Cristo", "A jangada de pedra", "A viagem do elefante”. Mas a obra prima é, sem dúvida, o "Ensaio sobre a cegueira", metáfora da cegueira social, que recebeu, inclusive, uma versão cinematográfica, que não conseguiu dar a dinâmica do livro. Saramago e Eça foram contumazes críticos da Igreja. Eça (A relíquia, O Crime do padre Amaro, o Primo Basílio) seguindo a linha do naturalismo, e vivendo no século XIX, ainda mantém atualíssimo o seu texto. Acrescentou um trato de humor e ironia, absolutamente incomparável na nossa literatura Machado sequer chega perto. O resto é periférico.