Sérgio Agra Notas Dissonantes por Sérgio Agra "A crítica com transparência e responsabilidade. A visão do homem sob a ótica do humano, demasiado humano".

Coisas da aldeia...

20/02/2008

Ingleses. – Do alto da cobertura, vislumbro a verde, cálida e límpida imensidão oceânica, nesta praia ao norte de Florianópolis. Cinco pavimentos abaixo, após se atravessar uns poucos metros sobre um passadiço que protege a vegetação nativa, a cristalina faixa de areia se oferece, generosa, ao contato dos pés descalços. Já cantava um velho poeta que moramos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Que beleza! Em fevereiro tem carnaval. Até aí, tudo bem! Vivemos mesmo numa imensa aldeia tropical – nós, os do sul, particularmente, num clima mais para temperado -, com pujantes belezas em céus, matas e rios. Em fevereiro temos, o que juntamente com a desordem foram as duas coisas que deram certo no Brasil, o carnaval. Acredito, no entanto, que as bênçãos do Eterno devem ter sofrido razoável desconto.Tanto assim é que o Conselho Celestial, ao reunir-se com o Todo-Poderoso, reclamara das desigualdades, como a fome e a miséria de muitos países africanos, dos terremotos que, vez por outra, arrasam Japão e os países andinos, dos maremotos, tufões e furacões que devastam a costa oeste dos Estados Unidos e a América Central, dos intermináveis conflitos no Oriente Médio, enquanto o Brasil goza das mais exuberantes riquezas naturais, imunes àqueles cataclismos. Deus-Pai, sem perder a fleuma, respondera: “Vocês já se deram conta do povinho que Eu coloquei lá?”.

A televisão – A TV dispara imagens que reproduzem o sistema e as vozes que lhe fazem eco. Não há um barraco, uma tapera no mais recôndito rincão tupiniquim que ela não alcance. Nós comemos emoções importadas como se fossem rótidóguis comprados nos balcões dos méquidonals da vida, enquanto contemplamos a vida em vez de fazê-la. Em Capão da Canoa a liberdade(??) de expressão consiste no direito ao resmungo num programa radiofônico que já não goza de audiência, sequer dos mesmos apoiadores.

O sistema – Os funcionários não funcionam. Os políticos falam, mas não dizem. Os votantes votam, mas não escolhem. As falcatruas são socializadas, os lucros privatizados. O sistema com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.

Suas vítimas – Quanto mais pagam, mais devem. Quanto mais recebem, menos têm. Quanto mais vendem, menos compram.

O banquinho da prefeitura – No meio do saguão da prefeitura havia um banquinho. Junto ao banquinho um segurança montava guarda. Ninguém sabia o por que se montava guarda ao banquinho. A guarda era feita porque sim, noite e dia, todas as noites e todos os dias, e de gestão em gestão os prefeitos transmitiam a ordem e os seguranças obedeciam. Ninguém nunca questionou. Ninguém nunca perguntou. Assim era feito, e sempre tinha sido feito. E assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual secretário ou assessor quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. Depois de muito cavoucar soube-se: - Fazia 25 anos, 5 meses e 18 dias que um prefeito tinha ordenado ao segurança montar guarda junto ao banquinho que fora recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.

As eleições – Todos eles prometem e ninguém cumpre. Vote em ninguém.

Sérgio Agra
agraeagra@terra.com.br
Advogado e escritor – Autor do livro “Mar da Serenidade”

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