Depressão: psiquiatra Sander Fridman fala sobre o assunto que afeta 5,8% da população brasileira

Fridman em entrevista a Globo News

Os números da OMS (Organização Mundial de Saúde) deixam um alerta de que a depressão alcançará, na década de 2030, a primeira posição entre as doenças com maior prevalência no mundo. Segundo os mesmos dados, a doença afeta 4,4% da população mundial.

No Brasil 5,8% da população sofre com esse problema, que afeta um total de 11,5 milhões de brasileiros.

O Litoralmania ouviu sobre o assunto o psiquiatra Sander Fridman, que recentemente começou a atender em Osório, na Rua Barão do Rio Branco, 261, sala 8, na Clínica do Dr. Ângelo Mason. O telefone é 51 3663 2755.

Litoralmania – Além da tristeza e o desânimo, quais são outros sinais da depressão, bem como sintomas físicos e psíquicos?

Sander – As depressões, grosso modo, dividem-se em dois grupos: as típicas, e menos frequentes, e as atípicas, e infrequentes. Muitas vezes as características se misturam.

As atípicas afetam, na nossa experiência, aproximadamente 80% dos casos, mas apenas cerca de 1/3 de acordo com a literatura estrangeira, principalmente anglo-saxônica. Além da tristeza e desânimo, apresentam irritação, hipersensibilidade a críticas e a rejeição, agitação/inquietude, sintomas físicos de ansiedade, sensação de que o corpo pesa como chumbo, aumento do apetite, aumento do peso, pensamentos negativos dirigidos ao passado, mas também dirigidos ao futuro (expectativas ruins), sono excessivo com ou sem dificuldades para conciliar o sono.

As depressões melancólicas, as consideradas “típicas”, em nossa experiência são bem menos frequentes, cerca de 20% talvez. Caracterizam-se por apatia, perda quase completa dos interesses que tinha anteriormente ao início do episódio depressivo, baixa resposta aos estímulos sociais, perda do apetite com emagrecimento, despertares frequentes no meio da noite ou acordando muito cedo de madrugada e não conseguindo mais voltar a dormir. O quadro melancólico foi descrito historicamente há muito mais tempo do que o atípico.

É comumente mais grave, mais associado a tentativas de suicídio, embora haja controvérsias, posto que a energia baixa e a apatia são tradicionalmente consideradas protetores contra o suicídio – o que não parece corroborado por estatísticas mais recentes. De fato, impulsividade sendo mais comum nas depressões atípicas, costuma ser considerado o principal fator de risco para suicídio. Mas as estatísticas não têm corroborado esta impressão clinica mais comum, e novos estudos precisarão confirmar e explicar os recentes.

Alguns fatores que podem estar associados a este risco aumentado nas depressões melancólicas são a maior gravidade (e dor psíquica) que acompanha este quadro, maior frequência e intensidade de se acompanhar de dores musculoesqueléticas, de pensamentos de culpas, inutilidade e de atrapalhar a vida das pessoas, de vontade de morte e de ideias de terminar com a vida – sintomas estes que acompanham ambos os quadros, mas são mais graves nos melancólicos/apáticos.

Suicídio comumente terá sido o primeiro sintoma de depressão grave para amigos e familiares que não atentaram para o conjunto de sintomas que já estavam presentes antes, especialmente nos quadros atípicos, ou naqueles que misturam ou alternam rapidamente entre exaltação, alta energia, ou até humor normal, e melancolia ou depressão agitada, com fortes idéias nihiilistas (de que nada faz sentido), e por alternarem períodos em que parecem estar muito bem, e se “esconderem”, se isolarem, comumente quando estão mal, ou parecem apenas excessivamente “dramáticos”, surpreendem as pessoas que não esperavam que estivesse de fato sofrendo profundamente.

Além disso, os quadros atípicos muito mais frequentemente encontram familiares padecendo de quadros depressivos semelhantes, ou não, enquanto, de acordo com a pesquisa hoje disponível, e ao contrário do que antigamente se pensava, melancólicos mais comumente não encontram familiares igualmente afetados, o que poderá impactar na empatia do grupo familiar, tornando os melancólicos mais solitários com sua dor, e mais propensos a atos suicidas como fuga ou como expressão de seu sofrimento.

A relação entre diferentes tipos de sofrimento mental, e até mesmo entre sofrimentos mentais e físicos tem sido estudada. A Depressão Atípica parece ter uma relação maior com certas características de personalidade, diferentes transtornos de ansiedade e, ao contrário do conceito psicopatológico tradicional, até mesmo com doença bipolar.

Doença bipolar é como é chamada desordem mental que comumente apresenta, ao longo da vida, sucessivos períodos de depressão, que duram em geral semanas a meses, e que apresentam também pelo menos 1 período com aceleração do pensamento, sensação de que os pensamentos não param um instante sequer, com grande quantidade de pensamentos, excesso de energia corporal, grande disposição para fazer coisas, muito baixa necessidade de dormir, parecendo falar muito mais do que o seu normal, com ou sem euforia ou exaltação do humor, entre outros vários sintomas, que podem ou não ocorrer ao mesmo tempo, inclusive, que os sintomas depressivos.

Difere da desordem depressiva maior, recorrente ou não, que não apresenta, ou nunca apresentou, períodos com grande aumento de energia, sensação de aceleração dos pensamentos e do comportamento. Esses pacientes com aceleração dos pensamentos e grande energia comumente não têm seus sintomas depressivos reconhecidos, porque a a doença depressiva é melhor reconhecida pelo abatimento e baixa energia e aplainamento do afeto, e isso faz com que estes pacientes, que são particularmente suscetíveis às tentativas de suicídio, vejam-se sem o devido apoio familiar, de amigos, e, não raro, não sejam reconhecidos em sua gravidade e riscos, pelo médico que os atende, especialista ou não.

É um quadro que, quando combina ao mesmo tempo, depressão com alta energia – chamado mania mista – provoca nas outras pessoas sentimentos de rechaço, antipatia e irritação, inclusive na consulta médica, e não raro é tomado equivocadamente por um modo de ser repulsivo.

E sem o devido atendimento, a chance de tentar o suicídio e sofrer das consequências – a morte e principalmente suas sequelas – torna-se particularmente elevada. Esses riscos costumam ser ainda maiores quando, juntamente com os demais sintomas típicos da depressão, a pessoa tem alterações sensoperceptivas ou convicções negativas injustificadas – os chamados sintomas psicóticos. Alterações sensoperceptivas é o nome genérico dado para a experiência de “ouvir vozes” (que ninguém mais consegue ouvir), que podem ser percebidas dentro ou fora da cabeça, igual à da própria pessoa, ou parecer-se com a de alguém conhecido, ou não; podem ser os próprios pensamentos ouvidos em voz alta, com uma clara experiência sonora, ou a sensação de que outras pessoas ou “entidades” comentam sobre a pessoa, ou falam com a pessoa, ou até lhe comandam coisas – por exemplo, e assustadoramente, cometer o suicídio! Ainda neste grupo de sintomas graves, incluem-se visões, vultos, aos quais a pessoa poderá atribuir um sentido especial, ameaçador, acusador ou de comando negativos.

As convicções podem ser de desesperança, de ruína, de doença grave (câncer, aids), mesmo quando nada indica estas possibilidades concretas, quando não indicam até mesmo o contrário! Por outro lado, em idosos, não raro, e não só, a depressão se apresenta na forma de uma sucessão de sintomas físicos que não encontram um diagnóstico médico definido, e é por isso chamada depressão mascarada, e também podem sofrer rechaço de familiares, amigos ou dos serviços de saúde por estarem “sempre se queixando e não terem nada”, ou por estarem sempre “inventando doenças”. Esses pacientes, acabam por envergonharem-se de seus sintomas, deixam de procurar ajuda, agravam-se e sofrem as complicações das depressões.

Ao contrário do que se pensa, as complicações das depressões não são apenas comportamentais, emocionais, sociais ou laborais. Depressões predispõem a problemas físicos, e são o principal fator preditor de um novo infarto ou de um novo acidente vascular isquêmico cerebral para quem recentemente já sofreu um.

A depressão tem um componente inflamatório reconhecido, que atinge o sistema nervoso e se acompanha de outros problemas pelo corpo, podendo agravar e ser agravada por doenças reumáticas, infecciosas, dolorosas.

Aliás, depressões graves associadas a doenças dolorosas crônicas representam uma das situações fortemente associadas com tentativas de suicídio, e, portanto, uma causa antecipável e prevenível, quando adequadamente tratada. Por tudo isso, e porque é direito de cada um buscar sua felicidade e o alívio para seus sofrimentos, que as pessoas devem procurar atendimento capacitado, e persistir nos tratamentos até o suficiente alívio e recuperação, que na grande maioria das vezes já é possível, mesmo para os quadros inicialmente mais graves.

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