Diferentes atitudes – Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

Em coluna anterior – “Exemplo a ser imitado” - escancarei dois comportamentos conflitantes: o EI (Exército Islâmico)promoveu ataques suicidas que provocaram feridos e mortos em duas igrejas coptas no Egito. Em contraponto, comunidades judaica e cristã, em Porto Alegre, comemoram a Páscoa numa ceia conjunta, um congraçamento sem ódios, direcionado ao convívio harmônico.

Se perscrutarmos desde o âmbito comunitário até o vasto mundo verificamos que os antagonismos superam até os mais comezinhos trâmites da realidade cotidiana. Há um vezo de separar tudo e todos em categorias distintas. As pessoas que pensam como nós são, obviamente certas e, quando procedem de maneira menos nobre (ditadores, por exemplo), têm motivos válidos para assim agir. Quando não são da nossa grei transmutam-se em monstros sanguinários. Exemplifico: Em 11/04 o economista João Neutzling Jr. Escreveu em Zero Hora: “Gostaria que mostrassem a resposta do mundo civilizado e dos EUA para o golpe de Estado que levou o ditador Pinochet ao poder no Chile com uma ditadura que torturava e assassinava opositores. E o golpe liderado por Jorge Vilela, na Argentina, ou a ditadura de Suharto, na Indonésia.

Respondi e foi publicado no mesmo jornal (13/04): Concordo com o leitor João Neutzling Jr. (ZH, 11/4). Os países ocidentais falharam ao coonestarem as ditaduras de Pinochet, Vilela e Suharto. Acrescentaria os ditadores Fidel Castro (Cuba) e Pol Pot (Camboja), entre outros. Suasmãos também ficaram manchadas com sangue. Merecem lembrança. Aliás, na época, o juiz espanhol Baltasar Garzon, que requereu extradição para julgamento em Corte Internacional de Pinochet poderia ter também indiciado Fidel Castro, que estava na Espanha e nãoexigiria extradição.

O vereador Márcio Bins Ely (PDT), comunicou em 02/04 que viajará a Brasília para homenagear o ditador Kim Il Sung, fundador do regime na Coreia do Norte, que faria 104 anos no dia 12/04. A Coreia do Norte é a mais fechada e sanguinária ditadura do mundo.Após a má repercussão do motivo doseu afastamento da Câmara de Porto Alegre o vereador Márcio Bins Ely (PDT) cancelou a viajem que faria a Brasíliae que seria custeada pelo partido. Não teria recursos financiados pela Câmara Municipal. O vereador Adeli Sell, (PT), afirmou que é um absurdo um vereador prestigiar um líder do país mais totalitário do mundo.

Um caso de apologia ao nazismo pegou de surpresa uma das mais antigas escolas públicas de Porto Alegre. Há cerca de três semanas o Colégio Estadual Paula Soares, localizado ao lado do Palácio Piratini, no Centro, recebeu uma estudante de Filosofia da PUCRS para participar das aulas da disciplina na escola, como parte de seu estágio acadêmico obrigatório.

De acordo com a diretora da escola, Jenecy Terezinha Godois Segala, como a estudante se mostrou tímida em seu primeiro dia, a professora titular da matéria, após apresentá-la para uma turma do 3º ano do Ensino Médio a deixou sozinha com os adolescentes. No entanto, cerca de dez minutos depois, um grupo de alunos teria subido à sala da direção para relatar que a estagiária, nesse período, os teria estimulado a fazer a saudação nazista com o braço direito levantado, em sala de aula e agredido uma aluna. A diretora diz que uma ata foi feita com o depoimento da estagiária. Nela, a mulher diz que, apesar de fazer apologia ao nazismo em sala de aula, não pretendia doutrinar os alunos “porque sabia que isso é errado”.  Ela afirma ainda que a escola procurou a faculdade de Filosofia da PUCRS após o incidente e cancelou o estágio na hora.

Exemplos de intolerância, fanatismo e dificuldade para aceitar as diversidades de opinião, crença e coabitação harmoniosa que ressaltei na minha resposta. Explicam, outrossim, porque há no Oriente Médio um estado de beligerância que perdura por quatro milênios.

Permito-me confrontar essas atitudes com outro “Exemplo a ser imitado”:

Quem mais que Nelson Mandela, após 27 anos de cárcere com trabalhos forçados teria motivos para, quando liberto e alçado ao poder, comandar uma jornada de vingança e retaliação? Mas, o que fez essa figura ímpar na História? Promoveu uma campanha de congraçamento, o fim do “apartheid”, o início de uma nova vida que, dentro das limitações, permitiu que a maioria negra passasse a coabitar com seus antigos algozes. Como resultado, em vez de lutas fratricidas, um país em desenvolvimento e pacificado.

Aqui, no Brasil, há vislumbre duma vida sem ranços nem corrupção após a Lava-Jato?

Jayme José de Oliveira cdjaymejo@gmail.com Cirurgião-dentista aposentado

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