SERGIO AGRA – Intelectual não vai a praia. Intelectual bebe.

EL CÓNDOR PASA

“Crie corvos e eles te arrancarão os olhos!”
Antigo provérbio espanhol

Querida amiga presenteou-seem seu aniversário com uma viagem. Destino: Santiago do Chile. Graças ao Whatsapp não me furteide neste final de semana em felicitá-la.

Imaginei, então, a bela cidade aos pés da maior Cordilheira do planeta, os Andes. O pensamento, livre, voou àquelas monumentais paragens e veio-me a lembrança acanção “Porque te vas” (El CóndorPasa), tema musical do filme “Cria Cuervos”, do diretor espanhol Carlos Saura, a que assisti no final dos anos 70, quando ouvi por vez primeira a instigante canção.

O cineasta foi um dos combatentes mais ferrenhos ao fascismo de Francisco Franco e sua ditadura que perdurou por cerca de quarenta anos. Produzido em 1975, o filme somente foi lançado em 1976, “CríaCuervos” reúne essas quatro décadas e, através dos olhos de Ana, uma criança órfã, descreve-as de forma sutil, porém amarga.

Ana é uma garota de oito anos que observou sua mãe, portadora de câncer, definhar até seus últimos dias; a negligência de seu pai, um militar fascista, fez com que Ana jamais conseguisse perdoá-lo, culpando-o diretamente pela morte de sua mãe. Alguns anos mais tarde, numa certa noite, Ana observa uma mulher saindo do quarto de seu pai em visível desespero; ao entrar no quarto, depara-se com seu pai, encoberto somente por um lençol, sem vida. Órfã, Ana passa a viver, assim como suas irmãs, com sua tia, mulher moralista e conservadora, e com sua avó, confinada numa cadeira de rodas e presa às lembranças de um passado menos impiedoso.

Para Ana, que não consegue compreender totalmente a morte, esta é somente um período longo de ausência; a canção “Porque te vas”, música-tema do filme que embala diversas de suas cenas marcantes, como é o caso de um raro momento de diversão em que Ana brinca e dança com suas irmãs, não poderia ter sido escolha mais acertada, visando que a melodia doce contrasta imediatamente com a letra mordaz que discorre sobre ausência e o sofrimento causado por ela.

Dizia eu que, ao felicitar a amiga, minha imaginação viajou até os Andes. O sentimento de paz, o silêncio e a vastidão que a esplendorosa e colossal Cordilheira provoca em nossos espíritos fez com que brotasse dos escaninhos de longínqua memória a canção do filme.

El cóndorpasa” é uma obra teatral musical à qual pertence a famosa melodia homônima. A música foi composta em 1913 pelo compositor peruano Daniel Alomia Robles e a letra por Julio de La Paz. No Peru, ela foi declarada Patrimônio cultural da Nação, em 1993.

Inúmeras foram as versões a ela dadas e centenas foram os intérpretes, desde a lendária herdeira dosReis Incas,YmaSumac (a quem, aos onze anos, na companhia de meus pais assisti sua apresentação no palco do Cinema Cacique, em Porto Algre), a flauta pan de GheorgheZamfir, Simon & Garfunkel, GigliolaCinquetti.

Por ser, para meu gosto, a mais lírica e delicada das versões, escolhi a interpretada por Plácido Domingo como guia nesta mágica viagem que compartilho com quem me lê.

https://www.youtube.com/watch?v=YSY3zPluWCk

Comentários

Comentários