Escrever poemas numa hora dessas? Sergio Agra

SERGIO AGRA – Intelectual não vai a praia. Intelectual bebe.

ESCREVER POEMAS NUMA HORA DESSAS?

 (Ou não ter algo mais útil por fazer)

Como invariavelmente acontece, meus bruxos, meus duendes, meus fradinhos da mão furada, invadem meu sonho, roubam-me o sono e, na algazarra que lhes é característica, me imobilizam pés e mãos, sem ofereceram-me chances de defesa, e me arrastam até o computador. Nada lhes demove daquela travessura, sequer meus argumentos que já passam das duas horas da madrugada.

Ciente do que eles são capazes, tanto em me concederem favores e benefícios como me enganarem e pregarem-me partidas, pergunto-lhes o que pretendem desta feita. Pulando, batendo palmas, num uníssono, garantem-me que adoraram brincar de “fazer poesia” e desejam continuar a brincadeira.

Lembro a madrugada do dia 13 de março em que eles, em alegre bando, assaltaram meu quarto e ordenaram que eu lhes fizesse algumas poesias. Argumentei dizendo-lhes que não era e nunca serei poeta. Ardilosamente me indagaram o que fazem os poetas. Respondi-lhes, escrevem poesia! E tu, replicaram, não és escritor? Então, um escritor também “escreve” poesia! Inútil seria minha tréplica ante tamanha sagacidade. E, naquele quase amanhecer, escrevi “Decompondo a Poesia”, que Litoralmania publicou no mesmo dia.

Admiro os poetas – os talentosos – que reinventam sonhos, pintam crisálidas, cantam os amores. Mais que admirar, no entanto, é saber ler e entender o que o poema traduz, sob o risco, o que acontece amiúde, de se ler uma espécie de “torre de babel” de pretensas poesias. Duvidam? Então, leiam:

O plenilúnio, na pluviosa e invernal noite,/ de doirado e intenso esplendor,/ borrifa sobre a dama-da-noite,/ acolhida pelo indevassável dossel de uma estufa, / desenhando um halo de inusitada cor”.

E a cativa claque explode em loas!

O poema, dos gêneros literários, se não é o mais difícil de ser bem escrito, o é em ser entendido. Mesmo sendo-lhe contemplado voos sem limites da imaginação do versejador, há de guardar lógica e verossimilhança.

Se a noite, como a descrita acima no poema “ensaio”, é de chuva, há de se presumir que as nuvens impeçam o brilho, mesmo sendo lua cheia (plenilúnio), ser vislumbrado; menos ainda que os raios desse luar trespassem o “indevassável dossel” da estufa. Quanto ao esplendor “doirado”, ainda que um tanto forçoso, a licença poética concede esse arroubo.

Enfim, mais intrincado do que escrever e ler um poema, é entender se o que o poeta versejou tem um sentido, tem uma lógica. Caso contrário, nem a licença poética o absolve.

Por esta insofismável razão, apesar da tirania desses monstrinhos e inimigos íntimos, fico eu com minha descomplicada prosa. Mas sempre se abre uma exceção. Afinal, estamos no Brasil, sil, sil…

O Face Book e os “poetas” de ocasião

Num distante,tão distante carnaval,

entre tirolesas,havaianas e colombinas,

misteriosa e dissimulada odalisca,

a fronte envolvida por purpurinas

e delicado véu que me concedia a vista

dos verdes olhos como o mar abissal,

desafiou-me – tal zíngara dissimulada –

para dar asas a seus devaneios,

dedicar-lhe parnasiana poesia

como se fora ela, a odalisca,

Sherazade, a mulher de meus mil e um anseios.

Jurei-lhe, veemente,

ser menestrel de escasso cântico,

de verso desataviado e anacrônico.

A irreal escrava de harém, obstinada,

provocava-me, com fingida lascívia,

com seus “óhs” de encantamento

e “ais” de enganosa paixão

– canora cotovia –,

sacralizar em juramento,

exaltar-lhe o viço em suave canção.

As tolas havaianas,

colombinas e tirolesas,

incultas mulheres praianas,

presumem-serainhas e princesas,

alvas de lamecha poesia.

A cada poema(zinho),

também (mal)lido,

compartilham num delírio compulsivo:

“Lindo! das coisas da alma, quanta leveza.

“Lembra-me, tua poesia,

das panelinhas de coco que mamãe fazia”.

Deus meu!

Dou-me conta neste momento

de que hoje sequer é festajunina ou carnaval,

e de que sou incapazde tamanha descortesia,

mesmo aquineste universo virtual!

Assim,logradas e românticas princesinhas,

claque cativa dos obtusos bardos

que infestam as redes sociais,

serei eternamente grato e feliz em saber,

“no plenelúnio deste anoitecer”,

(como “eles” abusam dessa litania)

que minha despretensiosa poesia

dispensa vocês dos mil e um sussurros:

“Lindo! Que poético!

Lembra as noites de São João

e as paçoquinha que mamãe fazia

no velho e fumarento fogão!”

Comentários

Comentários