“Eu sou povo e jamais poderei me esquecer”… – Jorge Vignoli

Durante o primeiro governo de Juan Domingo Perón o câmbio era bastante favorável ao Brasil, o que fez com que aumentasse o número de turistas brasileiros visitando a Argentina. Conta-se que, nessa época, Perón teria dito que os brasileiros iam a Buenos Aires para “matar a fome”. Outro estadista, De Gaulle, também teria dito que o Brasil não é um país sério. Sabe-se que De Gaulle jamais fez esta afirmação, mas a frase permanece até hoje como verídica.

Brasil e Argentina há muito deixaram de lado a obsessão de um enfrentamento bélico. O Rio Grande do Sul até hoje possui em frangalhos uma rede ferroviária com a bitola menor do que aquela utilizada pela Argentina. Até estratégia militar havia em caso de ataque: se os argentinos resolvessem entrar Brasil a fora, pelo Rio Grande, o nosso recuo se daria até Santa Maria, e ali começaria a resistência. Se nós, brasileiros, invadíssemos a Argentina o plano de resistência dos hermanos começaria a partir de Santa Fé.

Mas, com o passar dos tempos, Brasil e Argentina concluíram que não há, entre ambos, nada a reivindicar, e a neurose militar de ataque aos poucos se obliterou, restando hoje a disputa apenas no futebol.

Também não é verdade que Perón tenha, em dado momento, nos chamado de “mortos de fome”. Perón foi amigo do Brasil, mantendo laços com o governo de Getúlio Vargas e não se negou a ajudar, no seu último governo, João Goulart, concedendo-lhe, inclusive, um passaporte para que pudesse viajar e se tratar no exterior. E Perón sempre foi sensível à pobreza do seu povo, dos humildes, dos “descamisados”, não sendo gratuito que, até hoje, a sua figura influencie a política argentina.

A Argentina viveu uma das mais facínoras ditaduras militares da América.  As “loucas” da Plaza de Mayo, síntese da resistência – tão diferentes em conteúdo e finalidade do que por aqui se vê – são exemplos de desassombro e, sobretudo, consciência, pois sem medo enfrentaram os celerados militares aquartelados no poder.

Agora Alberto Fernández, peronista moderado de centro-esquerda venceu as eleições na Argentina. É a resposta que o povo argentino deu a uma política neoliberal fracassada, dissociada da realidade e antipopular.

Confirmada a vitória de Fernández, o nosso presidente disse que não felicitará o colega eleito. Paradoxalmente, falou também que não pretende se indispor com Farnández. Absurdo, pois a “indisposição” já está selada.  E para piorar o ânimo beligerante o nosso desastrado chanceler bramiu que “forças do mal” celebram a vitória do peronismo. A indagação pode ser prosaica, mas é desta forma que se trata um país amigo e fronteiriço, com fortes laços comerciais com o Brasil? Pouco importa que, em certo momento, Fernández aqui tenha feito o sinal “Lula Livre”. À época, não era presidente. Agora, nos próximos quatro anos, ele será presidente da República e chefe de Estado, legitimamente eleito pelo voto popular, sendo impossível não conviver com essa realidade.

Inconcebível que nosso presidente não possua assessoria competente, e deixe de recomendá-lo em imiscuir-se na política interna da Argentina. Bastava uma nota singela felicitando-o pela vitória. Além de ato de diplomacia seria comportamento de urbanidade e boa vontade, que deve sobrelevar entre países irmanados, independente de posições políticas, na tão desejável e necessária coexistência pacífica. Mas Fernández não demonstra possuir formação beligerante. É civil, advogado por formação, e deverá levar a Diplomacia até o seu limite.

Agora, já que o presidente disse também que não irá à posse de Fernández, bem que este poderia então mandar um especial convite a Dilma Rousseff, dando-lhe a ela, evidentemente, um lugar de destaque no cerimonial.

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