Grupos de pais e o retorno da autoridade paterna – psiquiatra Dr. Sander Fridman

Fridman em entrevista a Globo News

Desde o início da década de 50, talvez como reflexo da guerra, assistimos internacionalmente à eclosão e ao desenvolvimento progressivo de uma cultura adolescente (sem pais? sem mães?), descolada do restante do tecido cultural, reinventando valores e rituais sociais, expostos aos próprios instintos, privados dos limites tradicionais, até o advento da internet, dos smartphones e a derrocada da televisão, quando nem mesmo o controle social da cultura via grande mídia persistiu para guiar as crianças e adolescentes em seu caminho de descobertas.

A quase impossibilidade de controle sobre o mundo cultural adolescente que se dá comumente longe do controle e até do conhecimento dos pais, na tela ocultável de cada smartphone, deixa cada criança livre para explorar uma série de experiências e emoções sem a mais mínima proteção moral e emocional.

Os grupos de pais, quase sempre no WhatsApp, que já chegam tarde e são ainda subutilizados, são um excelente recurso para devolver aos pais um senso de normalidade cultural e ética, de cujo discurso as crianças e adolescentes há muito se assenhoraram, pois até aqui só estes têm sido capazes de falar em nome de um coletivo legitimador, o dos jovens, de uma normalidade social – a “deles” – e de impor este sentido aos pais que, vencidos nos seus argumentos frágeis, mal-pensados e isolados, veem-se à mercê de um julgamento de reprovação “embasada” dos jovens, como “caretas, ultrapassados e inadequados”.

Os grupos-de-pais têm o poder de devolver aos pais a possibilidade de produzirem um discurso sobre a normalidade cultural e ética, e a capacidade natural e recomendável de impor uma ética e uma atitude compatíveis com a melhor experiência, o melhor conhecimento, com os valores familiares e com o dever de preparar os jovens para um caminho de vida mais bem estruturado, mais bem integrado, menos idiossincrático, e por que não dizer, mesmo, menos marginal.

Para tanto, o debate aberto e franco entre os pais, sobre situações, cenários, contingências, princípios, estratégias, imposições, motivações, premiações e punições, bem como sobre estratégias dialogais falhas e efetivas, são de valor inestimável.

Estes fundamentos, por mais que possam ser objeto de análise técnica pelos profissionais de saúde mental, não podem ser supridos por estes, pois dependem dos valores efetivos dos pais, dos subgrupos culturais e da sociedade como um todo, para além das posições morais particulares de cada profissional, escondidas por baixo de uma aparência de discurso tão somente técnico.

Valores são o produto das escolhas éticas das pessoas responsáveis de uma sociedade, e não o resultado necessário do conhecimento técnico imposto sobre uma sociedade.

* Dr. Sander Fridman – neuropsiquiatria, psicanálise cognitivista, psiquiatria forense. Mestre e Doutor em psiquiatria pela UFRJ.

Atende em Capão da Canoa: 3665-2487 – Osório: 3663-2755.

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