Insegurança, suicídio e cobertura vegetal urbana – Por psiquiatra Sander Fridman

O profissional começou a atender recentemente em Osório, na Rua Barão do Rio Branco, 261, sala 8, na Clínica do Dr. Ângelo Mason. O telefone é 51 3663 2755.

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Há poucas semanas frequentando Osório, e meus olhos de “estrangeiro” ainda me permitem estranhar o que para seus habitantes poderá já, de há muito, ter se tornado uma percepção monótona e irrelevante de seu dia-a-dia. Ao mesmo tempo, meu retorno a Porto Alegre, a cada semana, me traz um novo parâmetro para reavaliar minha cidade natal.

A educação no trânsito e o olhar sincero e transparente do Osoriense no contato direto de coração para coração, são características surpreendentes e evidentes ao “estrangeiro”, e justificam a cidade limpa e bem cuidada de um povo educado e de boa índole.

Contrasta, entretanto, o jeito, a um só tempo firme e doce de seu habitante, com a aridez ambiental da cidade. Em novembro e dezembro foi possível viver dias extremamente quentes, com luz solar forte e até ofuscante nas ruas refletidas no solo claro do piso urbano. Para quem vem de fora, chama a atenção, tanto como a qualidade humana, a escassez de árvores e flores nas ruas e canteiros da cidade, ao menos em sua extensa região central.

Aliás, faz esta escassez de cobertura urbana verde um estranho contraste com o que se vê em tantas outras cidades de formação social e cultural semelhante à de Osório – descendentes de açorianos, alemães e italianos.

Depressão e suicídio são um problema da modernidade no mundo todo. “Millenials”, ou a geração Y – os nascidos após 1980 – têm sido apontados como expostos até 3x mais frequentemente do que as gerações anteriores, nas sociedades desenvolvidas, ao risco de tentativas de suicídio e condutas auto-mutilatórias.

Este também é um problema que preocupa o Osoriense e sua população jovem, e as estatísticas apontam uma excepcionalidade do problema em detrimento do bem-estar de seu cidadão.
Sem pretender abordar levianamente o tema, nem reduzi-lo a um único fator inusitado, mas, ao mesmo tempo, recusando-me a desprezar aquilo que nos salta aos olhos e nos chama fortemente a atenção, podemos encontrar alguma pesquisa rara que poderá ser do interesse dos ambientalistas de Osório.

Afinal, nem só de bons ventos fazem-se boas novas. Em estudo publicado em 2013 na Revista Injury Prevention, Eugenia Garvin e colegas da Universidade de Pensilvania interviram em 3 áreas urbanas e as compararam com outras 3 áreas urbana e compararam o reflexo da intervenção sobre a percepção de segurança da população e o impacto sobre os índices de violência. Áreas antes vazias, mal cuidadas, abandonadas, baldias, foras mantidas como tais em 3 regiões e modificadas em outras 3, limpando, plantando ou podando grama e arvores, promovendo a paisagem urbana.

Esperava-se observar uma redução da criminalidade por uma diminuição da disponibilidade de espaços onde esconder drogas e armas, e onde esconder-se.

O resultado foi surpreendente!
Não se observou uma mudança significativa na incidência de atividades ilícitas, havendo até mesmo um aumento no comércio de drogas e no número de roubos com e sem armas. No geral, entretanto, pode-se identificar uma diminuição na gravidade dos atos criminosos, ou seja, a atitude das pessoas nas regiões intervidas se tornou menos agressiva.

Além disso, as pessoas que moravam naquelas regiões ou as frequentavam tiveram uma percepção significativa maior de segurança nas redondezas, desproporcional talvez às reais mudanças frias dos números. Citando outros autores, o artigo refere como fatores importantes na percepção social de segurança o aumento no orgulho da vizinhança (pela melhoria da cobertura verde e da paisagem), o encorajamento dos membros da comunidade a usarem os espaços públicos de modo a promover a coesão social, a redução do estresse e da fadiga mental associada a viver num ambiente urbano – fatores que sabidamente afetam, para ou para menos, os riscos de depressão e suicídio nas sociedades e nos espaços que ocupam.

Desnecessário dizer que a Filadelfia Americana não é a Osório Gaúcha e que fatores que lá afetam não terão necessariamente de serem observados por aqui. Nem podemos pensar que apenas arvores e flores, previnam, por si só e para sempre, a depressão e o suicídio! Mas a aridez ambiental e o calor fortíssimo da primavera e do verão Osoriense talvez pudessem ser amenizados com uma maior e mais colorida cobertura vegetal para a cidade, convidando seus habitantes a uma maior convivência nas ruas e praças, um maior orgulho de seus habitantes pela cidade ainda mais bonita e agradável e, com uma maior coesão social, proporcionada por uma cidade climaticamente mais acolhedora, índices de depressão e suicídio um pouco mais baixos.

Em tempo: estudo que veio à público na publicação britânica governamental “Forestry”, de 2013, deu conta de uma redução de 2-8ºC pelo aumento da cobertura vegetal, nas chamadas “Ilhas de Calor Urbanas”.

Aliás, de 8-11 mortes a menos por dia foram contabilizadas no Reino Unido, para cada grau a menos de temperatura do ar! Ou seja, para 5 graus a menos de temperatura média urbana, ao longo de 60 dias, 3000 pessoas a menos teriam perdido a vida no Reino Unido, por causa do calor – para Osório, corresponderia a 2 mortes a menos para 60 dias, ou, talvez, 12 mortes a menos anualmente. A impressão de que arvores aumentariam o risco de assaltos não foi comprovada.

Dr. Sander Fridman – neuropsiquiatria, psicanálise cognitivista, psiquiatria forense.

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