Jayme José de Oliveira

José Alberto MujicaCordano (José Pepe Mujica) nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 20 de maio de 1935. Marxista, juntou-se aos Tupamaros em suas ações de guerrilha. Foi preso quatro vezes e torturado. Em 1985 foi anistiado, exerceu vários mandatos no legislativo. Foi eleito presidente do Uruguai e empossado no dia 1º de março de 2015.

Esta figura carismática é um dos ícones da política da América do Sul. Ao contrário de outros militantes revolucionários de esquerda não levou ao governo os malfeitos e demagogias comuns aos seus congêneres, inclusive no Brasil. Manteve sua sobriedade e honestidade intocadas. Gizo três pensamentos e uma entrevista que merece ser aplaudida de maneira tonitruante:

“Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve, para que as coisas não roubem a minha liberdade”.

“Tive que aguentar 14 anos de prisão. Nas noites que me davam um colchão eu me sentia confortável, aprendi que se você não pode ser feliz com poucas coisas você não vai ser feliz com muitas coisas. A solidão da prisão me fez valorizar muitas coisas”. 

“O que chama a atenção mundial? Que vivo com pouco, em uma casa simples, que ando em um carrinho velho, essas são as notícias? Então este mundo está louco, porque o normal surpreende”.

Mujica – As pessoas estão dentro de uma gigantesca teia de aranha da sociedade de consumo que foi montada em razão da acumulação. As pessoas sequer estão conscientes disso. Quando compras algo, não te equivoques, está comprando com o tempo de vida que foi gasto para ganhar esse dinheiro. No fundo estás gastando tempo de vida! Quando te proponho a sobriedade como uma maneira de viver foi para que tenhas mais tempo. A maior quantidade de tempo possível, para viver de acordo com as coisas que te motivam. Não é necessariamente o trabalho. 

Entrevistador – Mas pode haver pessoas que livremente pensam que é bom para elas investir o tempo para ganhar dinheiro e com o dinheiro comprar um carro melhor ou uma casa maior.   Mujica – Sim, que trabalhem…que se fodam. Que trabalhem muito se quiserem. É uma decisão livre, mas somos livres quando não nos impõem uma cultura de comprar e comprar, porque a coisa mais importante que você tem é que ESTÁS VIVO. É um milagre que estejas vivo. A felicidade não é algo material. Diziam que “Um homem feliz não tem camisa”, mas, literalmente não é assim. Essa éuma expressão poética desfigurada. Minha definição de pobreza é a mesma de Sêneca: “Pobres são aqueles que precisam muito. Esses são pobres”.

Abro aqui um parêntese: “Temos que aprender o que é importante, e isto é a preciosavida, e as nossas famílias e quão rápido isso pode fugir de nós. Não é o que está dentro do bolso que mais importa. É o que está no coração. Amor é apenas uma palavra até que alguém chegue e lhe dê um significado”.

Mujica não se constrange em criticar a forma de governar, inclusive de aliados e simpatizantes de seu ideário. No livro “Uma ovelha negra no poder”, escrito pelos jornalistas Andrés Dauzo e Ernesto Tulbovitz, que gravaram os depoimentos, trás à tona uma confissão que Lula lhe teria feito em 2010. Relata que ao falarem sobre o escândalo do mensalão, que consistia em comprar apoio político, o petista lhe teria dito que aquela “era a única maneira de governar o país”.“Lula viveu esse episódio com angústia e um pouco de culpa”declara Mujica. Numa reunião em Brasília, em 2010, Lula lhe teria dito textualmente: “Neste mundo tive que lidar com muitas coisas imorais, chantagens”. O ex-presidente uruguaio Danilo Astori estava na sala.

O ministro Luís Roberto Barroso, durante o Fórum da ONU sobre Segurança Humana, 2 e 3 de abril de 2018, em São Paulo, defendeu a ideia de que talvez exista um “modelo de padrão de fazer política e  negócios” no Brasil que envolve corrupção e superfaturamento de contratos públicos. O fenômeno não é novo, mas a percepção dele é mais recente e muito aguda.

José Pepe Mujica renunciou ao cargo de senador do Uruguai em 14?08/2018. Foi uma renúncia voluntária. “Não é legal receber salário parlamentar, uma vez que já está aposentado”. Vejo que tenho 83 anos e vou me aproximando da morte. Quero tirar uma folga antes de morrer, simplesmente porque estou velho.

Um exemplo edificante dum homem que trilhou os ásperos caminhos da guerrilha, mas jamais se aproveitou do poder para enriquecer ou servir de instrumento aos corruptores, ávidos de sangrar os cofres públicos. Oxalá fosse seguido pelos que “ordenham” os cofres brasileiros, desavergonhadamente, sem escrúpulos, contribuindo para o depauperamento do nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

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