Justiça e misericórdia – Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

“Se Deus se detivesse na justiça deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que invocam o respeito à lei. A justiça sozinha não basta e a experiência ensina que quando se apela somente à ela corre-se o risco de destruí-la”. (Papa Francisco – Bula de Proclamação do Ano Santo da Misericórdia).  

“No entanto, dominando tua própria força, julgas com clemência. Assim procedendo ensinaste ao teu povo que o justo também deve ser humano. E a teus filhos deste a confortadora esperança de que, depois dos pecados, concedes o arrependimento”. (Livro da Sabedoria 12.18-19).

Mesmo na justiça terrena, nas normas jurídicas, está surgindo uma nova consciência, “in dubio pro reo”. Para quem errou, após pagar a sua divida com a justiça, deve ter oportunidade de encontrar trabalho e não ficar à margem da sociedade.

A mensagem de Jesus quando prega às multidões é a misericórdia, é a mensagem mais forte do Senhor. A misericórdia é divina, está relacionada como julgamento dos nossos deslizes. Grandes ou menores. Diferencia-se da compaixão que tem um rosto mais humano, significa sofrer junto quando se observa a dor e o sofrimento alheios, não permanecer indiferente.

Lembramos que também erramos. Todos. Aos que se preparavam para apedrejar a mulher adúltera, Jesus desafiou: “-Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra! Todos foram embora, um a um, a começar pelos mais velhos”. Jesus olhou para a mulher, que estava cheia de vergonha e lhe disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou? Nem eu te condeno. Vá, e de agora em diante não torne a pecar”. O perdão exige como contrapartida o arrependimento e o compromisso de não reincidir.

Aliada à misericórdia a justiça é mais justa. Isso, porém, não significa ser condescendente, escancarar as portas das prisões para quem cometeu crimes. Significa que devemos ajudar a não permanecer por terra os que caíram. É difícil admitir, porque às vezes preferimos trancar alguém em vez de tentar recuperá-lo. Isso se aplica para aqueles que têm a intenção de se regenerar e não mais reincidir.

Indultar quem não se arrepende e procura regeneração é injusto para com a sociedade. O corrupto não se arrepende, transforma a corrupção num hábito, um modo de viver. Quando abre as portas a um empreendedor desonesto, considera que ao final a sociedade será beneficiada e, na realidade é um intermediário que possibilita a execução de obras que de outro modo não existiriam. A propina representa o justo valor de seu engajamento indispensável e a vida dupla que leva uma necessidade incontornável.

O corrupto está tão fechado e satisfeito que não se deixa questionar por nada e por ninguém. Passa a vida buscando os atalhos do oportunismo, ao preço da dignidade. Própria e dos outros. O corrupto, assim como o psicopata – e, muitas vezes, as duas personalidades convivem -tem sempre a cara de quem diz: “não fui eu” ao ser desmascarado. O corrupto muitas vezes não se dá conta de seu estado, do mesmo modo que quem tem mau hálito não se dá conta. Se indigna se lhe roubam a carteira, se lamenta pela falta de policiamento na rua, mas sonega impostos sem o menor escrúpulo e depois conta vantagem diante dos amigos. Convive na sociedade e não vê nenhum problema em aproveitar as oportunidades que daí lhe advém para exigir o pagamento de propinas. Não cogita em mudar de procedimento porque não tem qualquer resquício de remorso. Considera-se essencialmente um negociante bem sucedido.

Frei Betto assim se expressa sobre o corrupto:  “O corrupto se caracteriza por não se admitir como tal. Esperto, age movido pela ambição do dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. O corrupto não se expõe, extorque. Considera a comissão um direito, a porcentagem, um pagamento por seus serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence.

Há muitos tipos de corruptos. O corrupto oficial é o que se vale duma função pública para tirar proveito a si, à família, aos amigos.

O corrupto não sente nenhum escrúpulo em receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou ainda caronas em jatinhos de empresários. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é corrupto. Julga-se um negociante bem sucedido”.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

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