Mordomia – Jorge Vignoli

Depois de recente edital do Supremo Tribunal Federal, listando os víveres para a Corte, imagino que no café da manhã das Excelências também são servidos brioches, croissants e baguetes, além de Brie de Melun, geleia de frutas vermelhas, figos do Mediterrâneo e uvas de bagos graúdos, mesmo àquelas sem nenhum sabor, cultivadas no Vale do São Francisco.

No brunch certamente degustam pequenos sanduiches recheados de avocado, misturado com creme de leite, cebola rocha, água mineral e suco de pera com gengibre, que dá uma espécie de frescor matinal de início de outono ao paladar.

No almoço ou no jantar os medalhões de filé e lagostas – que a licitação exige – creio que serão flambados no conhaque Frapin. Os camarões à baiana – também imposição do certame – suponho que melhor seriam feitos, coerente à tradição, por uma típica cozinheira baiana, do Largo do Pelourinho, trazida apenas para preparar o crustáceo.

Muito importante é o trato do Bacalhau à Gomes de Sá, que o edital pede, pois não se pode descurar das cebolas grandes, azeitonas pretas, batatas cortadas em rodelas de, no máximo, um centímetro de largura, alho picado, pimenta do reino, coentro e cheiro verde, tudo regado ao mais puro azeite de oliva português.

O carré de cordeiro, que o edital impõe, quando preparado merece especial acuidade: por óbvio, não pode passar do ponto. Para o tempero é recomendável alecrim, cebola, alho, um vinho tinto de boa qualidade, o mesmo azeite do bacalhau e um balsâmico: chefe Alex recomenda um valdostano envelhecido, no mínimo, por 25 anos e sal do Himalaia. Misturam-se todos os temperos e deixe o carré em vinha-d’alhos por horas. Depois, é só assar até ficar tostado por fora e suculento por dentro.

As bebidas têm capitulo à parte. Elas devem ser, conforme a licitação, perfeitamente harmonizadas com os alimentos. Se o vinho for tinto seco, tem de ser da uva Tannat ou do tipo Assemblage, de safra igual ou posterior a 2010, e que tenham recebido pelo menos quatro premiações internacionais (impõe o edital). Acho que um bom Chateau Barrail Du Blanc ou Calyptra Assemblage Gran Reserva, cairia bem com qualquer cardápio, mas indispensável, nesse ponto – acrescento eu – que os vinhos sejam servidos em taças de cristais Riedel.

E é preciso que, em cada derradeira ágape, os Ministros ergam as taças em brinde à dádiva da toga, ao suor do pobre, aos desvalidos deste triste e combalido país, e muito especialmente ao larjan do povo. Depois, lentamente, que fiquem a esmoer e a dar boas baforadas num autêntico havana, se fôlego ainda lhes sobrarem.

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