Nem nazistas, nem bandidos – por Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

Estamos às portas do segundo turno e o ambiente tenso que paira sobre nós é perturbador. Amizades se rompem, amores se desfazem, e até nas famílias – o reduto mais sagrado da convivência -, os diálogos são substituídos por amuos e, quando as discussões não ocorrem o silêncio é constrangedor.

O Papa Francisco, um dos homens mais lúcidos da terra e possuidor de um extraordinário poder de entender e analisar fenômenos do relacionamento humano, desolado com o que vislumbra declarou numa homilia: “Diante do tribunal de Deus, o ódio contra o irmão também é uma forma de assassinato, também o insulto e o desprezo. E nós estamos acostumados a insultar. Para aniquilar um homem basta ignorá-lo. A indiferença também mata”.

Para conhecer o sofrimento do teu próximo, há que adentrar no inferno. E o inferno já está ao nosso redor. O clima de ódio se alastrou como fogo em vegetação seca. A vegetação por falta de chuva, a coabitação fraterna por falta de amor, de solidariedade, de compreensão e por excesso de ódio, de cobiça, de orgulho – por que não dizer: de obtusidade -, por admitir apenas o próprio pensar e considerar fake todo o resto.

Nem nazistas, nem bandidos. O destempero generalizado a que se entregaram os brasileiros alcançou seu paroxismo nas qualificações de nazistas para os eleitores de Bolsonaro e bandidos para os de Haddad. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A violência contra adversários – não são inimigos, brasileiros é o que são – subtrai um dos esteios da democracia: a liberdade de expressão e de opinião.

Tentar impor “na marra” uma opinião é contraproducente, apenas agrada os já convictos e afasta ainda mais os que realmente se deseja convencer. Não agrega um voto sequer a candidato nenhum, ao contrário, enoja, entristece e provoca repúdio. Quem quiser trazer o outro para o seu lado pode começar respeitando suas opções atuais, procurar entender suas motivações e dialogar com argumentos lógicos, não com vociferações. O resto não passa de algaravia inconsequente.

Não podemos desdenhar o fato de que a população – até por autodefesa ante a avassaladora avalanche de crimes, roubos, malfeitos, etc. – é essencialmente conservadora e só num ambiente em que a força da lei suplanta a lei da força pode viver tranquila. Isso para os que trabalham honestamente a fim de prover os recursos que necessitam. Isso não aparece nas pesquisas porque a massa não tem voz, ela só aparece tonitruantenas urnas. Analisemos com frieza e serenidade propostas, por vezes antagônicas,e optemos pela qual estamos mais inclinados. O voto da razão deverá se sobrepor ao do sectarismo no segundo turno da eleição. Quem votar compelido pelo ódio poderá colher tempestades no futuro. E naufragar.

A HISTÓRIA nos dá exemplos de como não agir em coletividade:

Abraão foi o pai espiritual de três religiões monoteístas: judaísmo islamismo e cristianismo. Não foi apenas o pai espiritual de hebreus e árabes, carnal também. Em Gênesis 16: Abraão não podia ter filhos com a esposa Sara e esta pede que tenha um com sua escrava Agar. Nasce Ismael. Mais tarde Sara concebe Isaac e Abrão é forçado a expulsar Agar e Ismael que se refugiam no deserto e dão origem ao povo muçulmano. (Gênesis 21,18).

Iniciou a desavença que, no século passado, com a criação do Estado de Israel exacerbou. E uma luta milenar que deveria servir de parâmetro a ser evitado iniciou e nunca teve fim.

Luta entre irmãos sempre é encarniçada e de difícil resolução. Oremos para que haja pacificação no Brasil em curto prazo. Se não…

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

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