No fundo do poço – Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

Mais uma vez o Brasil aguarda na antecâmara da incerteza o desfecho do pleito que definirá seu futuro.

Nossa frágil democracia, como Ulisses (citado na Odisseia de Homero) defronta-se com perigos inauditos a sobrepujar, comparáveis a Cila e Caribdis no estreito de Messina. O herói grego conseguiu e retornou a Ítaca, ilha do seu lar.

Conseguiremos pacificar após a eleição?O passado recheado de ressentimentos, jamais atenuados, não serve de parâmetro, apenas acirra os ânimos além do limite suportável. Resta-nos a árdua tarefa de desviar os obstáculos, ignorar o ódio e rumar para o destino até agora incerto.

Odilon Ramos em “NO FUNDO DO POÇO” parafraseia:

NO FUNDO DO POÇO

Desde os tempos de criança eu sempre achava um colosso puxar com a corda o balde cheio da água do poço.

Eu guri, pensador, desde então já questionava como do fundo tão escuro, água tão clara brotava.

Eu era um piá curioso que até esticava o pescoço tentando ver o que tinha naquele fundo de poço.

E veio um tempo de seca, em que tudo ia mermando, até que num dia triste a nossa família viu:

o balde desceu o poço e voltou de lá vazio. Calamidade, desgraça, preces, lágrimas sentidas.

Patrão do Céu manda água, pois sem água não tem vida. Mas é que Deus decidira me mostrar, quando já moço, o que se pode aprender chegando ao fundo do poço.

Na mesma corda do balde que tantas vezes desceu, cheio de medo e cuidado, desta vez desci eu.

Com a luz duma velinha, cavando no lodo imundo, aos poucos fui achando o que havia lá no fundo.

Tinha uma tesoura velha que a irmã tinha perdido e era de cortar o umbigo de cada recém-nascido.

Tinha um bodoque que a mãe jogara lá por carinho, pois não queria ver a gente maltratando passarinho.

Um balde velho, que a corda rebentou e ele caiu.

Um brinco, não sei de quem e um isqueiro de pavio. Até um trabuco velho, este causou sensação

porque de sua existência ninguém tinha informação. Ouvia dos lá de cima a algazarra e o alvoroço a cada carga que o balde levava ao subir o poço.

Depois, com a pá e a enxada, numa missão dolorida, tirei do fundo do poço todo o lodo de uma vida.

Quando já quase findava tarefa tão cansativa, eu vi como por milagre, brotar do chão água viva.

Ao ouvir vozes que diziam: isso é o fundo do poço, lembro que nem eu sabia ser capaz de tanto esforço.

Quem sabe a gente se une, com fé, humildade e grandeza, e já que estamos no fundo, fazemos uma limpeza.

Há muito caco escondido no meio do lamaçal, que para ser retirado requer trabalho braçal.

E ASSIM, DO FUNDO DO POÇO VAI BROTAR UM BRASIL NOVO, SACIANDO DE ESPERANÇAS A ALMA DO NOSSO POVO.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

 

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