O futuro já chegou – Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

A medicina já foi definida como “um conjunto de verdades provisórias”. Quando as doenças eram consideradas castigos que os deuses impunham à humanidade pelos seus pecados, os sacerdotes, curandeiros e charlatães se arrogavam o direito de curá-las ou interceder perante as divindades.

Hipócrates é considerado o pai da medicina moderna e iniciador da observação científica. A evolução atravessou estágios até a prática hodierna. ESTAMOS NO LIMIAR DO CONSIDERADO FICÇÃO. NÃO É. O FUTURO JÁ CHEGOU.

Em três colunas procurarei expor as últimas conquistas e algumas que estão por vir. O “Correio do Povo” (04/08/2018) me fornece alguns dos dados que seguem, outros foram obtidos em consultas ao Google.

“Novas técnicas e procedimentos até pouco tempo consideradas obras de ficção científica proporcionam um salto de qualidade na Medicina e muitos desses avanços já são utilizados em instituições de Porto Alegre”.

E se você conseguisse viver com seu o coração parado durante a recuperação de um problema gravíssimo de saúde? Neste período de atendimento, que pode variar de poucos dias a semanas, o paciente ficaria em coma induzido, o equipamento faria 100% da operação do coração. O médico faria uma impressão em 3D de seus órgãos e faria a cirurgia em um ambiente virtual podendo antever as possíveis complicações.

ISSO JÁ EXISTE E É REALIZADO OU ESTÁ EM FASE DE TESTES EM INSTITUIÇÕES DE PORTO ALEGRE.  

A MUDANÇA GENÉTICA

Estudos que beiram filmes de ficção científica estão em andamento no Centro de Pesquisa Experimental do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) envolvendo a edição genômica. Os primeiros resultados se mostram positivos. Na prática é feita a correção de uma alteração (ou mutação) genética. Isso evita o desenvolvimento de um tipo de doença. Há um longo caminho a percorrer até essa técnica ser aplicada em pacientes humanos. O mesmo caminho pode ser trilhado antes do nascimento para prevenir doenças genéticas hereditárias. No futuro poderão ter um caráter curativo além do preventivo.

Quando empregado no tratamento do câncer atinge apenas as células doentes e não as demais, sadias, amenizando os efeitos colaterais, garantindo melhor resultado e recuperação do paciente.  A identificação e tratamento de um gene ou mudança na formação genética permite evitar o desenvolvimento de uma doença no futuro.  

Estamos vencendo desafios da Medicina e tornamos possível o até agora impossível.

MICROBIOTA – SUAS CÉLULAS NÃO HUMANAS

Por incrível que isso pareça, as células humanas perdem em número para as não humanas em nosso organismo. Um homem de 1m70 pesando 70 kg possui 30 trilhões de células próprias e 39 TRILHÕES DE BACTÉRIAS, a maioria localizadas no aparelho digestivo. Levam o nome de “microbiota”. Fossem todas inertes ou benéficas poderiam formar uma associação de simbiose, onde ambos se beneficiam mutuamente. Como uma parcela é patogênica, causa doenças, por vezes fatais, cumpre separar o joio do trigo. Vírus, fungos e outros micro-organismos se situam nesse lado. Outras são indispensáveis à vida. Auxiliam na digestão, algumas sintetizam a vitamina K2 essencial à coagulação do sangue. Há um terceiro grupo, e neste podemos citar a “Escherichia coli”, que são bactérias bacilares normalmente encontradas no trato gastrointestinal inferior. Podem tanto causar graves intoxicações alimentares como serem benéficas a seus hospedeiros ao produzirem a citada vitamina K2, inclusive, impedem a instalação de bactérias patogênicas.

Imagine só: Você tem mais bactérias dentro do seu corpo do que células humanas.

É isso mesmo. Não adianta fazer cara de nojo. Se você desmontar o corpo humano inteiro, célula por célula e separar o que é bactéria de um lado e homem do outro, os micróbios ganham de lavada.

A desproporção passa despercebida porque seu tamanho é muito menor, no conjunto elas podem pesar até 4 quilos!

A maior parte dos micróbios vive no sistema digestivo. O intestino grosso é uma verdadeira salsicha de bactérias – a chamada flora intestinal. E isso é ótimo, elas são essenciais para a nossa capacidade de digerir certos carboidratos complexos e para outros serviços metabólicos em geral, como a reabsorção da água e nutrientes pelo intestino.

Trata-se de uma relação benéfica para ambos os lados. As bactérias prestam seus vários serviços digestivos (sem elas não conseguiríamos digerir o amido, por exemplo, um importante carboidrato de batatas e cereais) e, em troca, recebem carta branca para viver dentro de nós sem serem importunadas. De alguma forma o sistema imunológico, que normalmente ataca qualquer coisa estranha que aparece pela frente, reconhece que essas bactérias são benéficas e permite que fiquem por lá. Os cientistas não sabem exatamente como isso funciona.

Estudos indicam que seria possível viver sem a ajuda dessas criaturinhas, mas nossa dieta precisaria ser bastante diferente.

Por meio de pesquisas os cientistas podem usar a biotecnologia e a modificação de genes para desenvolver produtos que auxiliem no combate a doenças (drogas) ou evita-las (vacinas), criando produtos transgênicos que, além de evitarem alergias, são mais baratos, obtidos em escala industrial e podem ter sua estrutura modificada para melhorar sua performance.

Um grande avanço da medicina foi a produção de insulina humana utilizando bactérias. A insulina é essencial para doentes de diabetes. Descoberta em 1.921 por Frederik Banlin. Produzida utilizando pâncreas de animais e seu efeito não era tão eficiente como a humana, além de, frequentemente provocar reações alérgicas. Com a transferência de genes também é possível produzir hormônios humanos como o do crescimento. Atualmente as vacinas produzidas por transgenia predominam, exemplo: a vacina H1N1 contra a gripe, distribuída gratuitamente para grupos de risco anualmente.

Cientistas da Universidade de Cork, na Irlanda, descobriram que bactérias da espécie “Lactobacillusramnosus” eram capazes de alterar o comportamento de ratos melhorando sua capacidade em atravessar labirintos. Também ficaram com o nível de stress diminuído por reduzirem em 50% a produção de corticosterona, uma substância que o desencadeia. As bactérias mexeram com o “segundo cérebro”, que por sua vez influenciou o cérebro principal. Abre-se a possibilidade de, no futuro, produzir antidepressivos em forma de iogurte.

Estudos da interação das bactérias com o tratamento de diversas doenças continuam em andamento, porém, como explica Dan Waitzberg, professor de medicina da USP, é preciso aprofundar os estudos.

O jogo da humanidade com as bactérias pode, no máximo, terminar empatado. Não devemos ceder, mas também não podemos querer exterminá-las. Afinal elas são parte de nós. A maior parte.

Os dados que embasam esta coluna foram pesquisados na revista Superinteressante, edição 362 e no Google.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

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