O luto e a Covid-19* – Dr. Sander Fridman

Fridman em entrevista a Globo News

O Luto e a Covid-19*

A morte impacta sempre, e nos lembra que a benção da vida neste mundo não é eterna. E se fôssemos nós? Nos haveríamos então com o criador, com nossos antepassados? Com nosso legado, nossa história? Deixaríamos bem quem nos sucederá? Nossa semente seria honrada, através de nós? Serão capazes de sobreviver bem sem nós? Por quem seremos trocados? Seremos lembrados com amor, respeito, carinho? Ou com vergonha, com mágoa? Teremos tempo de nos despedirmos, nos desculparmos, mostrarmos nossos arrependimentos, recuperarmos nossos melhores merecimentos, antes do derradeiro suspiro?

A identificação com o morto – nós em seu lugar – é parte da fonte do horror da morte. A outra são as dúvidas: fomos bons o suficiente com o morto, deixamo-lo partir magoado conosco? Seus poderes de espírito desencarnado poderão nos causar mal, ficamos em dívida com ele? Se chorar e penar o suficiente durante os ritos de morte, seremos suficientemente perdoados pelo morto, que assim poderá não voltar para se vingar? Faltamos com ele em sua hora de necessidade? Ajudamos tanto quanto pudemos? Fomos responsáveis, de algum modo, por sua morte? Fizemos-lhe algo que levou à sua morte? Tiramos-lhe os meios de sobrevivência? Fizemos com que amaldiçoasse a vida e a si mesmo, por não poder levar alimento às pessoas por quem se sentia responsável? Privamos-lhe desnecessariamente do medicamento ou tratamento que poderia ter-lhe salvado a vida? Sentenciamos sua família à miséria e à falta do amor e cuidados do falecido ou falecida? Seremos perdoados pelo morto? Por Deus?

A negação destes sentimentos e crenças multi-milenares, constituintes de tudo o que nos faz humanos, pode gerar frieza e até comemoração: estaremos agora mais perto da queda deste governo? Meu grupo, partido, ou máfia, está uma morte mais perto de reassumir o poder!

Revolta, medo, luto, dor, memórias, enganos, equívocos, articulações, interesses econômicos e políticos, desconfianças, tudo isso parece tumultuar os sentimentos e pensamentos de quem tem o direito de tão somente chorar os amores perdidos para a morte. Na visão de Igor Caruso, ao menos os mortos nos deixaram, mas não nos traíram. E os que ficaram?

A morte e a ética andam juntos! Há os que as negam, ou negam a importância transcendental de ambas. Num mundo em que o crime parece estar compensando muito, em que juízes supremos terrenos representam tão mal o juiz Supremo Celeste, até a intimidade da dor e dos sentimentos sensíveis dos enlutados nos têm tido comumente tirados.

*Dr. Sander Fridman – neuropsiquiatria, psicanalista cognitivista, produção e contestação de prova judicial.

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