O meu dia não – Versão revisada e melhorada – Sergio Agra

O MEU DIA NÃO, ou ESCREVER UMA CRONICA NUMA HORA DESSAS?

– Versão revisada e melhorada –

Na manhã de terça-feira, 11, decidi ir à Estação Rodoviária de Capão da Canoa reservar passagem para Porto Alegre. Alguém há de apressadamente me alertar: por que não compraste pela Internet? Acontece que na área da Informática, das plataformas e dos aplicativos não realizei minha transição do Século XX para o Terceiro Milênio. Fazer o quê?

Chamei um Uber (Ah, isso, ao menos, já sou PHD). Da portaria do meu prédio percebi, no entanto, que o carro havia passado do ponto por mim informado e seguido em direção à praia. Imaginei que o motorista desejasse, talvez, suavizar as retinas e se deliciar com a beleza das mulheres que caminham no Calçadão da Beira-mar. Detalhe: mulher bonita (predicado há muito em extinção por estes areais) não caminha no Calçadão. Malham suas invisíveis gordurinhas e celulites a bordo de uma esteira de academia.

Ao retornar acionei outro Uber, tendo o cuidado de informar que o aguardava no Box 14 da rodoviária. Após 342 horas de espera descobri que o idiota houvera estacionado na rua atrás da concessionária.

Chegando ao meu prédio, sonhando com o almoço ante a fome que há muito se fazia sentir, entrei no elevador. Não é que a maldita máquina emperrou exatamente no meu pavimento? As portas internas e externas são coligadas. O engate havia se fixado na trava de segurança e elas não se abriram. Fiz soar o alarme de emergência que mais pareceu sopro de comatoso com Intubação endotraqueal . A iluminação interna piscava como se de mim debochasse com a expressão facial de um Gilmar Mendes negando-me um habeas corpus, caso inédito no currículo dessaEscrecência. As pás do ventilador agora se postaram rígidas feito a Estatua do Laçador não sem antes me enviarem abaninhos de tchau, tchau! Tentei o celular: “Internet sem conexão”, brilhava na tela como o meio sorriso sacana do Bonner e a outra metade com o esgar despeitado da Renata Vasconcelos.

Como o nosso “Dia Não” dele detém vinte três horas e cinquenta e nove minutos e nos concede um minuto de piedosa misericórdia, percebi que a porta do elevador não se encontrava de todo cerrada. E por aquela mínima brecha enviei mensagem a base de batucadas de tambores em Morse para que a Emergency convocasse a “cavalaria americana”, responsável pela manutenção dos elevadores e salvasse o azarado cara pálida da armadilha dos comanches.

Acontece que neste vilarejo a terça-feira. 11 de fevereiro, é reverenciada a sua Padroeira (eu ignorava que aldeia de caboclos também comemora feriados, isto é, como entre os meses de março a novembro ninguém trabalha; seguem em alegre bando para Maceió os emergentes da construção civil, e para Garopaba ou Balneário Camboriú os proprietários das cafeterias, lanchonetes, dos quiosques e dos minimercados. Meu socorro somente poderia vir do “forte” Tramandaí, localizado a 35 quilômetros de distância.

Apoiei as costas na lateral da cabine do elevador e decidi dedilhar (é isso mesmo, com o uso único e exclusivo do dedo indicador) e escrever a Fantástica e Incrível História de Sergio Agra e o Dia em Que Preso Ficou na Cabine de um Elevador Emperrado (Não parece a epígrafe de cada um dos capítulos de Dom Quixote de Lá Mancha? Sorte minha inexistir a inconveniente figura de um Sancho Pança exalando suor e cachaça, já bastasse esta praga que possivelmente me tenha sido rogada por uma ou duas vizinhas que me veem como persona non grata?), que ora se encaminha, após quase uma hora de sauna gratuita, para o seu final “semifeliz”.

Resumo da ópera: O importante é não perder o MAU humor, caso contrário não resultaria na inédita e furiosa crônica escrita num elevador trancado no oitavo andar. A porta enfim se abriu, bem a tempo antes de (mais esta!) a bateria do celular se esgotar.

Vou almoçar o meu mais do que merecido estrogonofe, generosamente adicionado por um scotch 12.

Antes, porém, irei vestir um pijama. Hoje não saio mais de casa.

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