O mito de Gyges 2 – Jayme José de Oliveira

Jayme José de Oliveira

Platão, ao relatar o Mito de Gyges afirma que o homem almeja sempre mais glória, conforto, vantagens, prazeres. Apenas a lei e o temor das consequências o impede de agir desonestamente. (Livro II da República) Sócrates, seu mestre, afirmou que os homens se distinguem uns dos outros pela integridade ou falta dela. Participo desta convicção. Como as moedas, o íntimo do homem tem duas faces e a altruísta é responsável pelo progresso da civilização e nos conduzirá ao fim idealizado pelo Criador.

Vivenciamos a cobiça insaciável se alçando a deus único, levando a sociedade a um frenesi de consumo e egoísmo, pervertendo desde governantes a adolescentes. Habituamo-nos ao horror. Mal nos damos conta que ao entrar nesse frenético “quero-o-meu” como piranhas vorazes, as carcaças devoradas somos nós.

Insurjo-me contra esse fatalismo. Quando elegemos mal, arrepender-se do voto não pode ser considerado fora do contexto. Às vezes, mesmo soberana, uma decisão popular pode ser desastrosa, até para o país. Isso, contudo, não determina a impossibilidade de nos redimirmos na próxima eleição. Está em nossas mãos e de mais ninguém escorraçar os que se mostraram indignos da confiança e esperança depositadas. Utopia ou a única esperança? E não digamos ser impossível. Lembro Nelson Mandela que disse: “Sonho com o dia em que todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitas para viver como irmãos”.

Nelson Mandela nasceu na África do Sul em 1918, país onde o Apartheid era a lei, brancos e negros não podiam se relacionar de maneira nenhuma. Em 1944 ajudou a criar a Liga Jovem do CNA, organização considerada guerrilheira.

Preso em 1964, foi condenado à prisão perpétua. Foi libertado em 1990, com 72 anos, por pressão internacional. Quem após 27 anos de prisão com trabalhos forçados, ao ser libertado e assumir o poder, em vez de empreender uma luta de retaliação, aliar-se-ia a Frederik De Klerk, líder branco para elaborar uma nova Constituição e acabar com 300 anos de Apartheid, sem procurar vingança e retaliações? Abriu o campo para uma sociedade multirracial.

Em 1993 foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz. Em 1994 foi eleito presidente, tendo De Klerk como vice. Governou até 1999. Morreu em 2013, em Johanesburgo, merecedor do respeito e admiração generalizados. Como afirmei, possuindo o “Anel de Gyges”, usou-o para o bem, sem resquícios de enriquecimento ilícito ou outros despautérios. A desesperança campeia ao vermos a sociedade e o mundo sob o domínio dos mais fortes, dos mais impiedosos.

Perscrutemos a História da Humanidade. Estamos, sim, progredindo técnica e moralmente, senão vejamos, darei exemplos:

“Abraão estava prestes a imolar seu filho Isaac numa fogueira... para oferta-lo a Jeová”. Seria considerado tão fiel ao Senhor que abdicava do seu bem mais precioso: o futuro. Hoje? Filicida, crime hediondo.

Na guerra, cidade sitiada teria, depois de vencida, seus habitantes capturados como escravos. Os que não haviam sido passados pelo fio da espada.

Escravos? Propriedade, podendo, inclusive, serem mortos ao sabor da vontade do dono. E revendidos.

Hereges e bruxas eram queimados na fogueira, sob as bênçãos do Papa contemporâneo.

Não é necessário continuar. Convenhamos, ainda estamos longe do ideal, porém bem distantes desses horrores.

Jayme José de Oliveira cdjaymejo@gmail.com Cirurgião-dentista aposentado

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