O que dizer do inferno de Dante? – Sergio Agra

Capão da Canoa “Bitch”, 11h43m, quinta-feira, 2 de janeiro.

Hosana! Aleluia! Motumbá! Kalofé! Shalom aleikhem! Salaam Aleikum!

Abro as janelas de meu apartamento de onde descortino uma das mais belas avenidas do lugar, com pequenas palmeiras que ornam o canteiro central que separa as mãos do fluxo de automóveis, e percebo que onde desde a última sexta-feira se encontravam quinze veículos estacionados em cada um dos lados daquela leira agora avisto doze, o que, convenhamos, é um ganho extraordinário, pois o povo, a pouco e pouco, iniciou a travessia de retorno às suas aldeias.

Dizem que a “Bitchi” recebeu neste feriado prolongado cerca de oitocentos mil veranistas que, em alegre bando – mulher, filhos, agregados, sogra, papagaio, periquito e neuróticospoodles que infernizaram com histéricos latidos ouvidos mais sensíveis – para cá, trésheureux marcharam.Só não trouxeram as sapatilhas de balê da Patrícia Raquel e o piano do Roberto Maurício pra não pagarem mais caro a taxa do pedágio.

Os veranistas dão um “deixa pra lá” às normas da boa convivência e de civilidade. Desprezam as faixas de pedestres, trafegam na contramão, “esquecem” – pasmem! – o lixo na saída do elevador de acesso às garagens, fumam e trazem copos e vasilhames de bebida de vidro pra a borda da piscina. Coisas que sequer se atreveriam pensar em suas cidades de origem.

Na segunda e na terça-feira, seguramente, três a quatro horas foram reservadas para o percurso entre as gôndolas e as caixasnos supermercados.

O calor, desnecessário dizer, superou os 40º Celsius. Plagiando uma antiga marchinha de carnaval: “…de dia falta água, de noite também…”. Se a Corsan deu vexame, sejamos justos, a CEEE honrou sua obrigação. Somente no prédio onde moro, foram encomendados três abastecimentos de 10.000 litros de água de caminhões pipas vindos de, …vindos de… Sim! Porto Alegre. Os caminhões de Torres e Osório mantinham lista de espera! Chama o Antonio Brito: Vamos privatizar a Corsan!!! O FDP é mestre nisso!

Desde sábado, tal agorafóbico, enclausurei-me em minhabiblioteca. Rasguei folders de pizzarias, marmitas ou tele-entregas, boletos, extratos de contas, faturas de cartão de crédito. Desfiz-me de toda a tralha que ocupava espaço nas gavetas. Li dois livros e me delicio com o reaprendizado de Filosofia e de Espanhol, através da série da Netflix: Merlí. A meus amigos inteligentes e eternos aprendizes recomendo. É sensacional.

Este recolhimento a que me concedi transfigurouo cenário caótico de Capão da Canoa “Bitchi” na Porto Alegre dos verões de minha feliz juventude, onde a qualquer hora do dia ou da noite eu encontrava sempre uma mesa disposta em bons restaurantes, cinemas quase vazios, com o ar refrigerado em ótimo funcionamento e sem babacas contando para a mais idiota ainda da namorada o final do filme que ele já houvera visto, ou respondendo aos MSN’s ou aos Whatsapps que deveria estar recebendo. Nos finais de tarde, sentado às mesas nas calçadas dos extintos Lilliput e Julliu’s, eu sorvia o cremoso, dourado e, acima de tudo, honesto chope. Saudades!

Olho por vez derradeira as palmeiras da avenida, agora vergadas por um vento fustigante, e os praianos que por ela transitam, os lábios roxos e enrolados em toalhas estampadas com o escudo do “Curíntias” ou do “Mengão”, de volta pra casa para se abastecerem com o franguinho assado e, depois da sesta, com algumas rodadas de canastra.

E segue o baile!

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