O teatro do absurdo – Jorge Vignoli

O atual governo pode ser visto como o reflexo do que parece ser a atitude mais genuinamente representativa dos nossos dias: o absurdo! A característica marcante dessa atitude é a sensação de que as certezas e suposições básicas inabaláveis ​​foram varridas e desacreditadas como ilusões baratas.

Seguidamente, alguém do governo vem dizer algo sem propósito, algo de cômico e grotesco, mas também profundamente trágico e perigoso.

Isso se revelou, por exemplo, na atitude de um ministro – agora ex – que, teatralmente, apresentou um elóquio copiando o abominável Joseph Goebbels. Esse comportamento era impensável no pior momento da ditadura Médici.

E, ainda, há uma ministra que bramiu conversa, ao pé de uma goiabeira, com Jesus. E ela anda solta e livre “pela aí”, como diria o Ponte Preta, agora pregando a abstinência sexual como método anticonceptivo.

O ministro da economia, depois de memorar o AI-5, de forma gratuita metralhou os funcionários públicos chamando-os de “parasitas”, mas crítica alguma tece quanto às verdadeiras sanguessugas do sistema financeiro. Depois pede desculpas, diz que foi mal interpretado, mas as palavras já tinham produzido o estrago.

 O menosprezo ao adjetivar o servidor público de “parasita”, atinge por óbvio – perdão pelo acacianismo –, os professores, os policiais e tantos outros que vendem sua força de trabalho à causa pública, além dos militares que, no fim de tudo, sustentam esse governo.

E está na internet uma entrevista do presidente a um pastor ou bispo – sei lá! –, onde ataca os direitos dos trabalhadores, aí no âmbito privado, que, segundo diz, só têm “privilégios”.

Para o governo, no setor público, o servidor é “parasita”. No privado, só possui “privilégios”. Resta então para quem trabalha exatamente o quê?

Resta apenas absorver essa ópera-bufa… e esperar o próximo contrassenso do governo que, inexorável, virá logo adiante – para rirmos ou chorarmos.

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