Pra não dizer que nunca falei (sem beatices!) da Bíblia

Recebi através do smartphone um meme, um emoticon, um emoji ou um GIF – não importa – em que se observava a imagem dinâmica representando um menino e, atrás deste, um casal de adultos. No rodapé da imagem a frase dita pelo garoto: – “Eu tenho um pai e uma mãe!”. Na sequência divisava-se a imagem dinâmica do garoto, do casal de adultos e, mais atrás, de outros dois casais mais idosos e uma nova frase: – “Eu tenho quatro avós!”. Na subsequência o mesmo garoto, o casal de adultos precedido por dois casais de idosos que, por sua vez eram antecedidos por quatro casais de anciões e a frase do moleque garantindo: –“Eu tive oito bisavós!”. Adiante o guri ainda informava: – “Eu tive dezesseis trisavós!”.

Se o meme, o emoticon, o emoji ou o GIF se perpetuasse e o piá (ou o criador da animação) tivesse fôlego, ele se “perpetuaria” afirmando tivera tetravós, pentavós, hexavós, heptavós, octavós, eneadecavós (19ª geração de avós), hectoavós (100ª geração de avós), quiloavôs (1000ª geração de avós), até chegar a seus primeiros ancestrais.

Em esta espiral retrocedendo no Tempo, quem foram efetivamente nossos “primeiros” ancestrais? Qual a sua origem, de onde ele “vieram”, onde no Princípio de Tudo se “encontravam” esses bilhões de avós?

Este questionamento não derrui respectivamente o Torá ou a Bíblia a respeito da Criação do Homem se nestes Livros são encontradas contradições entre um Capítulo e outro (Gênesis e Isaias)? Tradições hebraicas, pergaminhos babilônicos e até vestígios na própria Bíblia indicam que a primeira mulher de Adão não foi Eva.

No Alfabeto de Ben Sirá, um dos textos que compõem a coleção de escritos rabínicos chamados Talmud, Lilith foi criada a partir da poeira junto a Adão – portanto, antes de Eva. Mas Lilithnegou-se a deitar sob ele na hora do sexo por não se sentir inferior e, em protesto, abandonou o Éden. Ou seja, Lilith rebelou-se contra a “superioridade” masculina de Adão, o que a torna uma figura problemática para o judaísmo e para o catolicismo, religiões patriarcais.

Outra evidência de que Eva não foi a primeira mulher pode ser encontrada nos versículos de sua criação, no capítulo 2 do Gênesis. Em várias edições do texto, Deus decide dar ao homem uma companheira “idônea”, o que sugere que alguma primeira parceira, “não idônea”, já tinha sido criada antes. Reforça essa teoria a fala de Adão em certas edições da Bíblia quando vê Eva: “Esta, sim, é osso dos meus ossos”.

A Igreja Católica deu um “delete” definitivo na única menção a Lilith dentro da Bíblia durante o Concílio de Trento. Nele, a Igreja decidiu tornar “oficial” a Bíblia Vulgata, uma tradução para latim do Século 4 que já havia trocado a palavra “Lilith” em Isaías 34 por “Ibis”. A adoção de uma versão da Bíblia que já tinha dado sumiço em Lilith permitiu que ela fosse aos poucos desaparecendo da tradição católica.

A teoria dominante sobre o Gênesis diz que a “incoerência” entre o primeiro e o segundo capítulo seria reflexo da tentativa de juntar dois mitos de criação em um livro só, e não sinais de que parte dele foi “apagado”.

A indagação de quem foram realmente os “primeiros” ancestrais, “de onde vieram” ou “onde se encontravam” esses bilhões de avós permanece no ar, assim como acende outras interrogações.

Se a Peste Negra, ocorrida entre 1343 e 1356, levando a óbito 1/3 da população europeia, mais de 200 milhões de pessoas, e se as Grandes Guerras houvessem vitimados, antes do acasalamento, aqueles que viriam a ser um dos nossos avós, estaríamos, hoje, escrevendo e lendo este artigo?

Discutir o que “realmente” aconteceu no Éden e filosofar acerca da espiral de nossos ascendentes (inversa a de Fibonacci?) assemelha-se polemizar se Capitu traiu Bentinho: não há uma resposta definitiva.

Agora, se Lilith foi um Mulherão da P….*, ah, disso não tenho dúvidas! Digo mais: – Por ela estou apaixonado e livre do conflito edipiano, pois, em última análise, nem minha madrasta ela foi!

*Mulherão da P…. – Mulher que impressiona pelo vigor da personalidade, pela inteligência e pela alegria com que vive, amparada em suas próprias opiniões e sentimentos.

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