Quinta-feira: 26.03.2020 – Quarentena desde… (ôpa…perdi a conta)

Erner Machado
Erner Machado

Do local da casa onde trabalho tendo em vista que , para estar junto com a família, abandonei o escritório ,tenho uma boa visão da frente da minha casa.

Esta posição, privilegiada, me permite ver o movimento de carros e dos poucos transeuntes que passam pela rua deserta.

Assim posicionado , vejo quem chega ao portão para ser atendido, de longe para cumprir os protocolos estabelecidos.

Pois hoje eu estava, como todos os dias, trabalhando nos relatórios de um cliente, quando ouvi palmas do lado de fora de nosso muro.

Levantei os olhos e me deparei com o cidadão já grisalho. No braço direito portava um grande cesto coberto com um guardanapo branco.

Educadamente cumprimentou-me e perguntou-me seu não queria comprar rapaduras, paçoquinha, amendoim, pés de moleque.

Apressou-se a informar-me não eram feitos em casa pois não tem condições de fazer.

Informou que os doces estavam todos em embalagens fechadas e que ele os comprava em um fábrica de doces, para cujo dono tinha prestado serviços.

Falou que obtinha um bom desconto e com prazo de 30 dias de forma a que pudesse vender pelo mesmo preço que o comercio vendia, ficando com um pequeno lucro e podendo pagar a fábrica.

Me disse que trabalhava na Obra, como ajudante de Pedreiro, que não tinha carteira assinada e que há duas semanas não tinha como trabalhar e que então lhe surgiu esta ideia de comprar doces e revender.

Tinha na família a esposa, a sogra que morava com eles e quatro filhos para sustentar.

Disse que era invasor do Posto 6 em Capão Novo e que sua casa, é um barraco feito com escoras de eucalipto e restos de tábua, tinha luz de “gato da Ceee” e que água era obtida de um vizinho que tinha um poço de balde.

Para cozinhar tinha um fogão cuja lenha ele colhia nos restolhos de madeira de obras, ou nos matos que circundam a sua casa.

Diante de sua narrativa eu me mantive em silencio e ,em segundos ,fiz uma viagem no tempo e me encontrei em Rosário do Sul, de calças curtas , sandálias sete vidas , camiseta surrada e um balaio, cujo peso meus braços de guri de sete anos quase não suportavam.

Me lembrei dos vizinhos que, por saberem a procedência dos doces e o estado de necessidade de minha família, comprovam 3 ou quatro doces de leite o que me dava uma satisfação imensa…

O resto do balaio eu tentava a sorte subindo a rua Independência e chegando na praça Borges de Medeiros, onde oferecia para o Motorista de Taxi que ficavam em frente ao Hotel quinze de novembro, para os funcionários do banco da Província, do Banco do Brasil, da Caixa Federal e do Banrisul…

Ao fim da tarde retornava para casa , com o dinheiro suficiente para alimentar meus irmãos menores, minha mãe, meu pai e minha madrinha que morava com a gente.

Mas tinham dias, e muitos, que eu não vendia nada e nesse dias a janta era café preto engrossado com farinha de mandioca.

Fui despertado do meu sonho , pela vos educada do homem de cabelos grisalhos me perguntando:

– Posso contar que o senhor compre pelo um dos produtos?
– Sim pode…! Me consiga tres pés de moleque, três rapaduras e três paçoquinhas.

O seu rosto foi iluminado por estranho sorriso de satisfação e alegria. O mesmo aquele sorriso que há sessenta e cinco anos atrás brilhava no meu rosto quando um cliente fazia uma boa compra.

Paguei-lhe o valor correspondente e ao me entregar , à distância os produtos, me agradeceu com um sorriso e se despediu com um até logo…

A minha resposta foi o silencio pois eu tinha voltado, navegando, no mar das minhas lágrimas, ao meu mundo e ao meu tempo de guri. Tão distante mas tão presente na minha vida e na minha história.

Quê , na presente quadra de minha existência, eu sempre tenha um trocado, para comprar doces feitos em casa ou revendidos por alguém que me lembre de quem fui e do que fiz para sobrevir à dura realidade de quem tem que batalhar pela comida de cada dia e que, às vezes , perde a luta…

Erner Antonio Freitas Machado

Consultoria Financeira e Imobiliária

www.ernermachadoimoveis.com.br

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