“Nicholas e Alexandra” é uma das grandes filmografias do início dos anos 70, que retrata a família real russa, do começo do declínio imperial, até o extermínio trágico da Casa Romanov, a vida dentro do palácio, o apego e o profundo amor da tzarina pelo filho hemofílico.

A reconstituição da época é impecável – assim como foi em Doutor Jivago – em plena a Guerra Fria, quando a então União Soviética era fechada ao mundo ocidental.  A direção do filme é assinada pelo excelente Franklin Schaffner. Janet Suzman, como Alexandra e Michael Jayston como Nicolau II, são esplêndidos na interpretação.

O filme retrata também a passagem de Rasputin – no filme vivido por Tom Baker, também de excelente desempenho – pelo núcleo do poder imperial. Rasputin o monge corrupto e charlatão passou a exercer grande influência sobre a czarina, e, consequentemente, sobre Nicolau II. Rasputin era um homem inegavelmente de forte personalidade, inteligente, porém inculto e sem escrúpulos.

 A imperatriz considerava-o um santo e acreditava que protegesse com poderes sobrenaturais a saúde de seu filho da grave enfermidade. Aos poucos, Nicolau perdeu apoio político que tivera na Duma enquanto Raputin alargava sua esfera de influência, obtendo da imperatriz nomeações para o seus amigos e aliados, formando assim uma verdadeira camarilha.

O filme se detém no período que antecede a Revolução Russa, os greves distúrbios, e mostra o imperador inacessível a toda e qualquer influência no sentido de afastar Rasputin dos negócios do governo. Rasputin, finalmente, foi brutalmente assassinado. O corrupto monge, porém, era apenas um sintoma do desequilíbrio da sociedade russa e sua morte não poderia, evidentemente, solucionar os problemas do país.

Invoco o filme e a figura de Raputin como eminência parda de um governo que desmoronava, não só pela beleza do filme, mas pela influência mística que um charlatão pode operar dentro do poder, especialmente quando o governante é fraco e ignorante.

E ao lembrar Raputin, me veio a figura do “bispo” Edir Macedo. Não, não, Macedo não é Raputin, nem de longe, embora se diga que faça alguns milagres, mas ao que se sabe não transforma água em vinho tinto, ou dá a luz ao cego ou eloquência mudo, como diz o poema do Quintana. Macedo tem o dom, isto sim – e é louvável – de multiplicar o dinheiro, como Cristo multiplicou os pães e os peixes. Mas andou, no passado, se havendo com a Justiça, sendo preso (Cristo também foi encarcerado). Edir foi acusado de estelionato e charlatanismo. Acabou solto e o processo arquivado. Novas denúncias depois foram formuladas, mas nada apurado, tudo restou arquivado e sem nenhuma prova. Sim, Edir é um homem limpo e honesto.

E essa semana foi compartilhada pela Rede Social o Presidente da República de joelhos a receber “óleo consagrado” do “bispo” Macedo. E admitiu que fora ele, Presidente, quem fez questão de ir ao religioso para a “sagração”. E eu fiquei absorto em pensamento a imaginar o “bispo”, pouco a pouco, a entrar no núcleo do poder em Brasília, e, adiante, de se ver confundido com uma versão tropical de Gregorio Yefimovich Rasputin.

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