Sagrada Família ou Família Sagrada? – Dom Jaime Pedro Kohl

O primeiro domingo depois do Natal a liturgia católica o dedica a Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Pensando nesses ilustres personagens não é difícil reconhecer sua sacralidade. Mas será que o adjetivo “sagrada” é privilégio só da família de Nazaré? As famílias ditas comuns, que são a grande maioria, não trazem consigo algo de “sagrado”?

Não tenho dúvidas que sim. Não porque seus membros sejam perfeitos, mas porque a intimidade de vida que se cria entre as pessoas que constituem família tem sempre um quê de “sagrado”, de profundamente pessoal e comprometedor. Por mais quebradas e desgastadas que sejam nas suas relações; famílias obrigadas a migrar por perseguição ou por trabalho; famílias sem teto, sem terra e sem trabalho; carentes de saúde e educação… e tantas outras situações mesmo de pecado não perdem sua sacralidade.

A festa da Sagrada Família que também experimentou a pobreza, a perseguição, a fuga para preservar a vida, é exemplo iluminador da proteção e da força de Deus sempre que se busca viver na fidelidade ao projeto natural de família, vocacionada a gerar, cuidar, educar e proteger a vida.  Por mais precárias que sejam as situações concretas, a família é sempre fonte de vida.

Devemos reconhecer que a família, hoje, sofre fortes investidas e ataques violentos na sua vocação original. Em tempos de ditadura do relativismo, ninguém se escapa da crítica, do questionamento, dos ataques inescrupulosos daqueles que querem fazer de si mesmos e de seus impulsos desordenados, regra de vida para todos.

Ao armar sua tenda entre nós, Jesus o fez no seio de uma família, exatamente para valorizar e dignificar essa pequena comunidade humana e mostrar-nos quanto ela é significativa e essencial à sociedade e à Igreja.

“A família, ‘patrimônio da humanidade’, constitui um dos tesouros mais valiosos dos povos latino-americanos. Ela tem sido e é o lugar e escola de comunhão, fonte de valores humanos e cívicos, lar onde a vida humana nasce e se acolhe generosa e responsavelmente” (302).

“Deus ama nossas famílias, apesar de tantas feridas e divisões. A presença invocada de Cristo através da oração em família nos ajuda a superar os problemas, a curar as feridas e abre caminhos de esperança” (119).

A família que acolhe a vida como dom de Deus torna-se santuário da vida, viveiro da humanidade, jardim de Deus onde nascem e crescem as flores mais belas e totalmente originais, presépio pronto para acolher aquele que nos vem trazer a paz.

A Sagrada Família é sempre modelo inspirador para todas as famílias e em todas elas tem algo de sagrado, tão íntimo e forte, tão humano que chega a ser divino. Aquele que se fez carne num espaço familiar ama e zela por todas as famílias por mais frágeis que sejam as situações nas quais se encontram. Família é vida partilhada, lugar da presença de Deus.

Para refletir:

  • Que significado tem para mim a Família de Nazaré?
  • Percebo algo de sagrado na minha família? Onde isso se manifesta?
  • Como gostaria que fosse minha família?
  • O que eu posso fazer para que seja sempre mais próxima do ideal?

Textos bíblicos: Eclo 3,3-7.14-17ª; Cl 3,12-21; Mt 2,13-15.19-23; Sl 127 (128).

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