SOMOS TODOS IGUAIS ESTA NOITE

 (Novela em cinco capítulos)

 

Capítulo I

 

No Caminho de Roma

                                                                        Nunca duvides do poder dos Lázaros”. Quando estiveres com tuas defesas e celeiros escancarados, cuidado!

 Eles “ressuscitam”, se autoproclamam “salvadores da Pátria”

e decretam indisponíveis a semeadura de tua existência inteira”.
“O Evangelho Segundo os Brasileiros Definitivamente Desiludidos”.

 Desiludida com o papel de tola que desempenhara,Morena Sarlo decide partir de Roma ao amanhecer.

Por vez primeira em seus cinquenta anos de vida ela deixara São Borja levando na bagagem suas esperanças e as economias da mãe.

A novela que Morena havia escrito fora selecionada para o especial Romanzo de latinoamerica, da RAI –Radiotelevisione Italiana. Na correspondência enviada pelo Núcleo de Novelas da emissora, Morena recebera, juntamente com o voucher das passagens aéreas de ida-e-volta, instruções para viajar a Roma.

Do Circo Massimo Exclusive Suite, onde se encontrava hospedada, Morena ligara por três vezes ao diretor. Em resposta disseram-lhe que o homem se encontrava em Florença, logo, logo, assim que retornasse, iria ao seu encontro, que si aspetasse.

– Esperar? – Morena deixara aflorar o desânimo – É só o que tenho feito nesta puta vida!A mulher já aguardava há mais de semana o bendito telefonema e o reembolso das despesas que tivera com alimentação. Desconfiado, o gerente do hotel naquela noite exigira não apenas a desocupação da suíte como o pagamento das diárias vencidas.

Mochilas às costas, Morena Sarlo, desiludida e com os últimos cents de euros nos bolsos desce a Via Dei Cerchi, rumo à Piazza BoccadellaVerità, de onde são avistadas as luzes da Ponte Palatino sobre as águas do Rio Tibre.

Na praça, àquela hora vazia, Morena senta num dos bancos perguntando-se como faria para chegar ao Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci, em Fiumicino. O aeródromo está localizado a 40 km de onde ela se encontra e o trem mais barato custa €$. 8,00.

Um gari se aproxima e pergunta, Sei tu perso compagna? Examinando o homem à sua frente Morena rebate, Si, “perdida” e mal paga, assim como tu!– e reavalia o recém-chegado.

A barba e os ralos cabelos em total desalinho apresentam pelos brancos. O desconhecido curiosamente veste não o uniforme de um trabalhador de agência de limpeza urbana, mas um macacão e um capacete que mais lembram o de um metalúrgico.

Morena expõe suas mágoas, País de merda este teu! O outro, fingindo indignação, cerra o punho levando-o ao peito e discursa, Tenho cidadania italiana, mas sou tão brasileiro quanto você! O tom de voz de Morena é de pura ironia, Agora não me falta mais nada, um varredor de ruas tupi-guarani! O gari não deixa por menos, O que é isso, compagna? Quer saber? Aqui qualquer gari vive bem pra cacete.

Os traços do homem não são de todo estranhos a Morena Sarlo, que logo afasta tal impressão, pois aquele a quem imagina fosse morrera há pouco mais de mês.

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