Suicídio: falar ou calar?* – psiquiatra Dr. Sander Fridman

Fridman em entrevista Globo News.
Fridman em entrevista Globo News.

*O Dr. Sander Fridman é neuropsiquiatra que atende todas as idades e casais, inclusive terapia sexual. É mestre e doutor pela UFRJ. Foi diretor científico do Serviço de Doenças Afetivas da Santa Casa de Porto Alegre, Chefe do Setor de Neuropsiquiatria e Saúde Mental do Serviço de Neurologia e Neurocirurgia Dr. Mário Coutinho, responsável pelo Serviço de Memória da Santa Casa do Rio de Janeiro.  Atende também em Osório.

Suicídio: falar ou calar?*

O tema do suicídio tem sido longamente evitado nas discussões sociais, contrariando a curiosidade natural das pessoas em relação a tudo que envolve comportamento, vida e morte. O fato é que o consenso entre os profissionais da saúde em torno do Efeito Werther – em alusão à obra de Goethe, que provocou uma onda de jovens que se matavam como “prova” de amor e inconformidade, como o referido personagem – ou seja, que o suicídio seria contagioso pela divulgação de exemplos e notícias acabou por gerar merecidas cautelas.

Há quem acredite que perguntar sobre pensamentos, desejos ou planos de suicídio tenha o poder de incutir em alguém esta inclinação. Embora isso não seja totalmente verdade, confessar sentimentos suicidas, transbordando dor, emoção e vergonha, assusta o interlocutor despreparado: como ajudar? Como impedir? Qual o limite? Qual minha responsabilidade? A reação do interlocutor pode ser suportiva, serena, firme, ajudando o confessor a encarar a realidade de seu sofrimento, e a buscar a ajuda competente de que claramente necessita.

A vergonha, a culpa por não conseguir lidar sozinho com seus problemas, entretanto, pode impedir a pessoa de buscar ajuda em tempo hábil. Além disso, poder ser vítima de graves equívocos sobre seus problemas, vendo-os como se não tivessem qualquer saída, qualquer modo de enfrentamento possível, submergido em desesperança. Esta pessoa dificilmente acreditará que um profissional da saúde mental poderá fazer qualquer coisa para ajudá-lo.

Por isso é tão importante que, sabendo-se das inclinações suicidas do amigo, conhecido ou familiar, não nos restrinjamos a oferecer um consolo superficial. Nem imaginar que “quem vai se matar, não fala” – justo ao contrário! É importante acionar a “rede de proteção social”, e nos tornarmos parte dela. Informar pessoas de confiança, marcar a consulta com o profissional escolhido, acompanhar o paciente até a consulta, acompanhar o uso dos medicamentos, acolhê-lo enquanto a inclinação suicida persistir. Não ser crítico nem rude com seus sentimentos. Instilar esperança e garantir o apoio necessário.

Comumente, um tratamento bem conduzido poderá mudar a percepção dos fatos, e melhorar muito o pessimismo do paciente. Poderá ajudar o paciente a encontrar estratégias efetivas de aceitar e enfrentar seus naturais e comumente inevitáveis sentimentos de perda e impotência. Poderá ajudar a solucionar problemas objetivos que oprimem o paciente e o desafiam para além de suas capacidades, naquele contexto e naquele estado.

De tudo isso, diga-se em suma, que, no caso do suicídio, calar é barro, falar é prata, ouvir, acolher e agir é ouro.

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