Trilogia da Longevidade – Carlos F. Jungblut

Escolho ser Feliz

Todo al fin se sucedió

Sólo que el tiempo no los esperó

La melancolia de morir en este mundo

Y de vivir sin una estúpida razón”

Fito Páez

A vida segue seu ritmo alucinante, o tempo passa sem aviso e a correnteza segue nos levando. Em meio a tamanha turbulência por vezes tentamos parar e pensar no motivo de estarmos aqui. Vivos.

Mas a vida segue e tocamos em frente. Chegando aos 100 anos sem saber por quê.

Na infância perdi amigos, vários deles, de forma absurda. Andrézinho, Xampú, Alemão, Gustavo – acidentes de trânsito – outros dois se foram pelo abuso de substâncias… Outro se foi vítima de agressão… Podiam ter ido um pouco mais devagar.   O que deu errado? Todos eram cheios de vida, daqueles cuja presença trazia alegria e bom humor, nos enriqueciam. Gostaria que ainda estivessem aqui.

Não nos perguntamos para não perder tempo, pois não existe resposta. Estamos aqui, simples assim. E o que vai ser do mundo depois que nos formos? Será como antes de existirmos…

Cada um encontra seu modo de valorizar a existência, de não chegar arrependido na velhice. O que dizem aqueles que se aproximam do fim? Em grande parte, gostariam de ter tido maior convívio com as pessoas queridas. Piegas, mas verdadeiro.

Pois tenho minha teoria também para a busca do equilíbrio espiritualidade – família – profissão, que chamo aqui de triângulo existencial.

Católico de formação, cada vez mais cético por vivência. Não acredito no espiritismo também, embora tenha me apegado ao conceito – que li em algum lugar do passado – de evolução espiritual; acredito na capacidade de me tornar uma pessoa melhor com o passar do tempo, e acredito que isso seja uma escolha a ser renovada diariamente. E, se houver algum tipo de julgamento no final de tudo, poderei dizer com orgulho que fiz meu melhor.

A família é o vértice mais forte. Em nossa cultura temos isso com clareza, afinal somos latinos! O ponto chave dessa história é que, mesmo que gostemos de nossos entes queridos, isso não basta. É preciso cultivar, o convívio tem força. Olhar para o outro, analisar seus momentos, posicionar-se. Conversar com os filhos, juntos e individualmente. Saber da companheira como foi seu dia. Mais do que mudar tudo pela familia, é preciso deixar sempre muito claro que estaria disposto a fazê-lo. Todos lá em casa sabem que estão em primeiro lugar. Longe, mas muito longe do resto… bem, talvez não seja exatamente o que possamos chamar de equilíbrio… mas assim que vejo e assim que aprendi com meus pais… Que bom.

O trabalho gera controvérsia. Ele é realmente um dos pilares da nossa existência ou seria um mero meio de subsistência?  Como regra geral, passamos muito tempo trabalhando, ele torna-se parte de nós. Contribui para a construção de nossa personalidade e nos define.

Sábado passado voltava de Campinas, voando ao lado de um dos ícones da Otorrinolaringologia nacional, o Dr. Sadi Selaimen. Gostei muito de uma frase dele: -“o objetivo deve ser flertar com a perfeição, flertar com a eternidade”. Não foi pretensioso, longe disto. Ele apenas deixou sair, nessa conversa leve e superficial, aquilo que sente em relação a profissão, que construiu ao longo de anos de sacrifício e aprendizado. E de gratidão, como deixa claro quando fala de seus mestres. Já perto de Porto Alegre, ele conta de um livro que está editando junto a seu antigo professor americano, agora um amigo, que, passado dos 80 anos, segue trabalhando e fazendo planos para o futuro profissional e seus próximos desafios. O que move pessoas assim?

Essas palavras imediatamente me lembraram de “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Um pescador desacreditado e em período de “má sorte” luta bravamente contra um adversário honroso, ao longo de dias no mar,  sem nunca pensar em desistir ou menosprezar aqueles momentos. Ao contrário, valorizada cada pequeno detalhe da pesca e se funde com o momento que vive. Competência, cuidado, engajamento, excelência,… Você não faz isso por dinheiro. Nem mesmo pelo aplauso… É o seu ofício! Sua personalidade está contaminada pela sua profissão, e vice-versa.

Existem pessoas que nascem com algo diferente. Uma felicidade intrínseca, lidam com as dificuldades sem muito sofrer e sem arrependimentos. Mas estas são raras, e para todas as demais – como eu – é necessário aprender esse caminho. Acredito que cada um de nó tem um espectro de virtudes, e escolher ser feliz, por exemplo, é um passo muito importante para desenvolver este potencial.

Embora eu não consiga responder sobre o motivo da vida, garanto que a dedicação ao triângulo existencial torna esta questão irrelevante. Os espaços ficam preenchidos e a motivação renovada.

Viver mais anda lado a lado com viver bem, ser útil e produtivo. Não somos objetos decorativos. Finalizo esta miscelânea de idéias desafiando cada um de nós a lutar contra a zona de conforto e dizer para si mesmo: eu escolho ser mais feliz. Que tal hoje?

Carlos F. Jungblut
Médico Ortopedista
Mestre em Cirurgia pela UFRGS
Atual Presidente da Sociedade Gaúcha de Ortopedia e Traumatologia (SBOTRS)

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