Um paraíso chamado farol da solidão – Sergio Agra

UM PARAÍSO CHAMADO FAROL DA SOLIDÃO

 In memoriam de LSB

O mais importante da vida não é saberes

onde estás, mas sim para onde vais.

Goethe

Quando a noite caíra em pleno dia sobre Porto Alegre e o temporal de chuva e vento desencadeou, LSB estava por completar quatro anos. Pesadas nuvens cobriram os céus e obrigaram os moradores a manterem acesas as lâmpadas de suas casas como se noite fosse. Esse vento ainda espargia as cinzas do incêndio que revoltosos haviam provocado nos estúdios da emissora de rádio situada nos altos do antigo Viaduto.Desde então, na semana que precede a data do aniversário de L, a paisagem de Porto Alegre se transforma: o céu adquire uma tonalidade pardacenta, carregado de nuvens plúmbeas, como que se abaixassem e intencionassem afogar a terra.

Conheci L quase que por toda uma vida, ela, porém jamais soube de minha existência. Quem sou eu? Meu nome? Isto, agora, é o que menos importa. Apenas aceita meu convite. Écomo se sobre uma imensa mesa eu te estendesse o mapa de uma ainda misteriosa cidade e nele vislumbrasse o rio que lhe abraça, suas casas, suas ruas, suas floridas praças e seus recônditos bosques que segredam mágicas cascatas. Permite-teconhecer um tanto da alma de L.

Aquele não seria para L um alvorecer diferente dos que a contar dos quatro anos anunciavam a data de seu aniversário não fosse o dia do seu jubileu. L,vencida a perturbada e mal dormida noite em que se revirou entre os lençóis amarfanhados em consequência do implacável assalto de fantasmagóricas visões que anunciavam para data incerta a varredura do terço de todos os homens e de todas as mulheres do planeta ante a chegada de um Armagedom,desgostosaante o fracasso dos serviços de uma Yalorixá pagos a peso de muitos dígitos debitados em seu Cartão de Crédito e da enganosa intersecçãoda Mãe de Santo junto aos Orixás, tomara a categórica decisão: elaabdicaria, a partir daquele dia do aniversário de cinquenta anos, da zona de conforto em que até então se mantivera albergada e colocaria um fim àqueles espectros que lhe perturbavam o espírito. Posso dizer, sem pejos de vaidade, que em muito contribuí para tal propósito. A partir de então eu não mais me fazia necessário a L.

Para Leste arbítrio se tornara imprescindível, vital: — descerrar as portas do porão para que dali eclodisse a sombra até então represada pelo ego. L demonstrou a intrepidez necessária para mergulhar na natureza sombria de si mesma e empreender a jornada de autoconhecimento. A sombra de L— como a de cada um de nós — representa por um lado tudo aquilo que ela (e nós todos) “não gostaria de ser”. É na sombra que também guardamos ricos potenciais, pois ao nos identificarmos e vivermos um lado, o trazemos à luz da consciência e reprimimos pelo menos o outro lado na sombra. A cada escolha o ego deixa de viver muitas outras possibilidades que também se incorporam à sombra. Desta forma, a sombra guarda muitos potenciais que podem ser conscientizados, nos fornecendo novos recursos. Quando o ego toma uma posição unilateral ele polariza um lado em que se discrimina e se identifica, guardando no mínimo o lado oposto que também se polariza na sombra, seguindo o princípio da compensação.

Recordoo dia em que ouvi de L, como se ela estivesse falando para si mesma: — “Vou voltar àquele Farol. Será precisoque eu abra sua porta, escale todos os seus degraus e do alto da torre eu olhe novamente o oceano…”.

L não sabia da existência de Diego Kovlakoff, personagem de um conto de Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços. Sequer conhecia a obra de Galeano, ou de qualquer outro autor. Seria extremamente pretencioso e improvável exigir de uma menina com idade de quatro anos que pelas mãos de seu pai vislumbrara o mar por vez primeira. A frase de encantamento que o pequeno Kovlakoff da obra de Galeano dissera ao pai ante a imensidão oceânica também poderia ser a de L:

— “Pai, me ajuda a olhar!”.

L voou até o Farol da Solidão, o Paraíso que a pequena garota conhecera segura pelas mãos fortes e acolhedoras do pai. A magia ante o silêncio quebrado somente pelo rumorejar do oceano na rebentaçãoe o encantamento que Diego Kovlakoff e a menina sentiram foram os mesmos da mulher que ela se tornara.

Mas já não havia o pai para ajudá-la a olhar.

Na madrugada primeira de um outono, o toque do celular despertou a Doutora. Era um chamado deL. A curta distância entre os prédios de ambas foi vencida em poucos minutos. A Doutora ingressou no imenso apartamento. Placidamente sentada num sofá, o celular piscando por chamadas não atendidas, L segurava o boleto da passagem aérea de sua última viagem ao Farol da Solidão. L acabara de partir. No verso do boleto a Doutora reconheceu a letra de L:

“Ninguém para me dar tchau e ninguém para me receber, na volta. Uma criança chora, ela pode. Se eu fizer o mesmo, me chamarão de louca…”.

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