Uma aldeia com muito caboclo maldizente – Sergio Agra

À primeira vista o título da crônica poderia parecer um insulto, uma ofensa aos habitantes de uma cidade que não a minha, do lugar em que não nasci, do bairro que jamais morei, não fossem as expressões ditas por um nativo de Capão da Canoa.

Vivi por mais de cinquenta anos em Porto Alegre, minha amada cidade natal, quando decidimos morar na então sossegada Capão da Canoa. Aqui chegando necessário se me fez integrar não apenas com a cidade, com seus moradores, sobretudo com sua própria natureza.

Concluí que ser pescador seria missão impossível para quem não diferenciava carretilha de anzol ou de caniço. O mesmo empecilho de quem ainda hoje confunde o bolim das bochas com os pinos do boliche – é com inveja que vejo o indefectível e alegre bando de “apreciadores” da purinha ou da loira estupidamente gelada” disputando por dias inteiros renhidas partidas nas canchas da beira-mar.

Eliminadas essas possibilidades de lazer e entretenimento, constatei que deveria buscar na crônica e na literatura a vazão do ávido leitor e do atrevido e latente escrevinhador que “pedia passagem”.

Algum tempo atrás encontrei em caminhada no Calçadão conhecido que se interessou em saber se de fato eu não mais escrevia n’a folha do litoral e participava do programa radiofônico ponto de vista. Respondi-lhe, simplesmente, que este “ciclo” já havia se encerrado.

Seguindo a caminhada, retrocedi o dígito de meu “DVD Pessoal”. Nele repassei fatos desde a minha chegada nesta Capão da Canoa; das pessoas genuinamente voltadas para a Cultura e Patrimônio Histórico da antiga estação de veraneio, da organização das primeiras edições da Feira do Livro, da Comissão Organizadora, que dez meses antes do evento já se entregava com paixão no projeto da Feira seguinte. Daquele grupo original granjeei e frutifiquei amizades e afetos. Cultivei relações numa confraria que pretensamente em encontros semanais teria como objetivo brindar à vida através da boa mesa, dos bons vinhos, da cerveja generosamente cremosa e das boas e frutíferas conversas e discussões.

Fora exatamente nesses encontros, talvez no calor da libação, que a “ficha suja” de não poucas figuras conhecidas da administração pública e do empresariado local era trazida por algum confrade e escancarada para quem quisesse ouvir. Estupefato, exclamei questionando se não era exagerada a quantidade de “rabos-presos” por eles apontada?

Foi então que ouvi da boca de um nativo a singular explicação: – “Nada diferente do que tem a tua Porto Alegre! Aqui, a aldeia por ser pequena, a porta do ‘caboclo’ fica em frente à tua!”

Singelo, porém emblemático adágio. Passa-se, assim, a se conhecer a essência de alguns hipócritas que descortinam em você a fonte que lhes “jorre” ganhos e vantagens. Se a fonte não os “molhar” como ambicionam, o veneno, principalmente da intriga entre você e suas eventuais relações de amizade está plantada. Você passa a se perguntar: – “Por que Fulano não tem me ligado”? Por que Beltrana não responde a meus Whatsapp?”

Se você for atento, perspicaz, pode estar certo, você tem a certeza de que peçonhenta víbora foi destilado o veneno; de que fracassado e maldizente caboclo foi parido o fake News.

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