Jayme José de Oliveira

Thomas Morus (ou More) viveu num período em que a Europa tinha como conteúdo social uma nobreza que possuía todo o poder para se perpetuar na prosperidade faustosa, autoridade absoluta, prepotência extrema e nem sonhava em distribuir com justiça o existente – inclusive alimentos – à plebe que vivia em regime de semiescravidão.

Fome, miséria, peste, regime de trabalho (16 horas por dia sem férias, domingos livres, aposentadoria e que tais), intolerância e, de justiça, nem simulacro.

A revolta que sentia levou-o a escrever “UTOPIA” (do grego u-topos, não lugar), uma ilha imaginária onde vivia uma sociedade ideal, onde tudo era perfeito, harmônico e feliz.

Publicado em 1516, “UTOPIA” tinha por objetivo – e de certa forma o conseguiu – embasar o conceito humanista fundamental para explicar uma sociedade baseada em leis igualitárias, na qual não se admite a propriedade particular, não existe o dinheiro, tudo é comum e as pessoas vivem em harmonia, livres da violência e da intolerância.

Com o passar do tempo tornou-se a teoria que consubstanciou o desejo dos adeptos em propiciar a todos os elementos que compõem a sociedade uma vida digna em que não prosperam os demasiadamente ricos, poderosos vivendo no fausto, no desperdício, enquanto a maioria é submetida a um regime de penúria.

É um plano que se constata irrealizável porque exige para a sua existência que TODOS os humanos sejam honestos e trabalhem sem remuneração para o bem-estar da comunidade. Não admite, na realidade, que os indivíduos possam atingir posições de maior destaque graças a seus esforços e capacidade. Este fato inibe a mais entranhada característica humana: proporcionar a si e aos descendentes um padrão de vida progressivamente superior. Numa sociedade utópica perpassam gerações, séculos e milênios E TUDO PERMANECE IMUTÁVEL! Quem nasceu plebeu, assim vive, bem como seus filhos e os filhos dos seus filhos… Os “brâmanes” se eternizam sem sustos. E, suprema ironia – sem graça nenhuma – admitem escravos numa sociedade que pretende ser igualitária!!!

Sócrates, filósofo grego do século IV a.C. já ensinava a seus discípulos: “O sábio precisa escolher entre duas “cidades”: a real e a ideal, esta não se encontra em lugar nenhum na terra”. A utopia, para funcionar exige um mundo perfeito, como admite o próprio Morus. “À falta de um mundo perfeito, é preciso adaptar às circunstâncias e evitar choques frontais, do contrário se corre o risco de cair no ridículo, ou coisa pior”.

Para os utopianos não pode haver propriedade privada, porque tudo em Utopia é comum. O único caminho para o bem-estar social é a IGUALDADE DE POSSES. Ora, isso retira a alavanca que soergue o progresso: o estímulo a progredir.

A educação utopiana visa, em primeiro lugar, criar bons cidadãos. Ela é supervisionada por sacerdotes, vale lembrar que são poucos, nunca mais de quatrocentos, que se dedicam a instilar na mente dos jovens “princípios que beneficiam a vida da comunidade”, para tanto os mestres têm o dever de exortar, advertir, conter os transgressores e excluir dos ritos sagrados os que reconhecem como incorrigíveis. Esses terão sua impiedade punida pelo Senado, para os recalcitrantes a punição poderá, inclusive, ser a escravidão, pois a condição de perpetuidade duma república precisa ser diretamente absorvida e esta atitude é incutida desde a mais tenra idade – Alguém relaciona com a “escola COM partido”?

A utopia sugere uma ordem social alternativa que às vezes parece atraentemente próxima, mas que, ao fim e ao cabo, é inacessível. Incongruência que chega a ser brutal: em Utopia, que se diz uma sociedade igualitária, existem escravos. Alguns condenados judicialmente e também inimigos derrotados. Ninguém aventa que seja uma forma de instituir uma força de mão de obra suplementar. Pode ser um paradoxo que após a sua acolhida inicial, em 1516, tivesse que esperar quatro séculos para assumir a importância atual. Marx e Engels incluíram o nome de Morus entre as figuras fundadoras do comunismo na Inglaterra.

Os dados que embasam esta coluna e as que se sucederem fora extraídos do livro “UTOPIA” escrito por DominicBaker-Smith, com tradução de Denise Bottmann.
Nesta primeira coluna garimpei na “Introdução” assinada pelo autor, nas demais serão priorizadas informações constantes na obra em si.

Comentário do colunista: Como o próprio autor admite, para existir uma sociedade utopiana faz-se necessária a existência de seres perfeitos e dispostos a seguir as regras vigentes. Ora os humanos são caracterizados por possuírem o livre-arbítrio e cada um é singular, diferente de qualquer outro da espécie. Uma sociedade descrita em Utopia floresce em nosso planeta apenas em alguns animais gregários, como as abelhas e formigas. Nas colmeias, por exemplo, existem apenas a abelha-rainha, as operárias e os zangões. Cumprem suas funções sem tergiversar há milhares de anos e assim continuarão. Eventuais mudanças são ocasionadas por alterações no meio-ambiente, quando se fazem necessárias adaptações. Fora disso, o instinto é o único fator que rege as comunidades.

“É a geração de riquezas que permitirá aprofundar valores democráticos de liberdade e justiça. Necessária, assim a contenção de sofismas sobre a perfeição humana. A vida corre num campo social desarmônico, repleto de virtudes e vícios. Requer-se estabelecer a autoridade “moral” pelo mérito e esforço individual da conquista de conhecimento e prudência”. (Alex Pipkin, professor, doutor e consultor empresarial – Zero Hora, 05/12/2018)

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

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