Vontade humana e vontade divina – Dom Jaime Pedro Kohl

Não é tão fácil distinguir coisas que têm dimensões divinas, que fazem parte do Reino de Deus e as realidades do reino humano. As duas se complementam, porque em ambas o objetivo é a prática de vida das pessoas. A forma da ação divina e do querer de Deus deve ser percebida pelas criaturas humanas. Suas decisões devem estar fundamentadas no livre-arbítrio e na responsabilidade.

A vida no mundo pode ter caminhos tortuosos, indignos e desproporcionais em relação aos princípios do querer divino. A vontade de Deus está expressa na Sagrada Escritura e no coração humano honesto. Seu objetivo é chegar ao coração das pessoas para que elas superem todos os desvios que lhes causam sofrimento e incertezas para um futuro promissor e feliz.

O ser humano, por causa de sua liberdade, é capaz de mudar de rumo com muita facilidade. Ele tem diante de si a opção por um “sim” ou por um “não”, dando-lhe possibilidade muito ampla de escolha e de discernimento conforme as decisões de sua vontade. As consequências dessas decisões são previsíveis, mas nem sempre o homem consegue perceber seu alcance.

Podemos afirmar e o experimentamos continuamente que o ser humano nunca está totalmente pronto no seu agir. Ele precisa ter consciência de suas próprias limitações e de que é passível a erros. É aí que entra a ação divina, a capacidade de conversão e confiança na misericórdia de Deus. A vida humana é um processo, uma estrada de mão dupla e de busca de realização plena, plenitude essa que não se realiza apenas no humano.

O pano de fundo é o da justiça, que pode ser divina e humana. Dizemos que Deus é justo e as pessoas podem e devem ser justas. É sobre essa plataforma que acontece a realização da pessoa. As injustiças descaracterizam sua identidade e inviabilizam a ação de Deus. O amor vai além da justiça, ele é misericórdia, piedoso e prestativo, abraça toda criatura. O amor é graça.

Na percepção daquilo que é divino e do que é humano descobrimos que Deus se humanizou para que a pessoa se tornasse divina. Em Jesus, Deus se esvaziou e tomou forma humana. Com isso resgatou quem vive mergulhado em critérios desonestos. Só é capaz de se tornar divino quem fizer um caminho de despojamento do próprio orgulho e reconhecer a presença libertadora de Deus.

Assim, o ideal é buscar harmonizar a vontade humana com a vontade divina. Esse é o caminho da perfeita realização.

Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório

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