Votos: uma obra-prima de Sérgio Jockyman

Jayme José de Oliveira

Os da terceira idade, me incluo, lembram dois grandes jornais: “Correio do Povo” e “Diário de Notícias”, ambos extintos.

Tabloides – incluindo o novo “Correio do Povo” – mais fáceis de ler e manusear circulam a  partir de 1936 (“Folha da Tarde”). “Última Hora” (1960-1964), sob a direção de Samuel Wainer foi fechada pela Ditadura Militar devido à sua vinculação como presidente deposto.  Em 04 de maio de 1964 “Zero Hora” preencheu a lacuna, iniciativa de Maurício Sirotsky Sobrinho, do grupo RBS.

Jornalistas da velha guarda, podemos destacar Breno Caldas, Arlindo Pasqualini, Flávio Alcaraz Gomes e muitos outros, foram responsáveis pelo jornalismo no RS. Inúmeros profissionais engrandeceram a mídia gaúcha e lutaram ombro a ombro com os grandes centros do país.

Sérgio Jockyman (Palmeira das Missões (RS), 29 de abril de 1930 – Campinas (SP), 16 de fevereiro de 2011) foi um jornalistaromancistapoeta e dramaturgo brasileiro.Seu pai, um engenheiro agrônomo e farmacêutico, e sua mãe, professora primária, tiveram uma forte influência para que nele despertasse o gosto pela literatura.Jornalista desde os 17 anos, trabalhou no Diário de Notícias, Correio do Povo, Folha da Tarde, Rádio Guaíba, Rádio Farroupilha, Rádio Pampa, TV Piratini, TV Difusora e TV Gaúcha. Autor de inúmeras peças teatrais, poesias, contos e romances.

Para os leitores de “Litoralmania” uma obra-prima de Sérgio Jockyman nesta passagem de ano:

Sérgio Jockymann

VOTOS

Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa.Desejo depois que não seja só, mas que se for saiba ser sem desesperar.Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e fiéis. E que em pelo menos um deles você possa confiar e que confiando não duvide de sua confiança.

E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que algumas vezes você interpele a respeito de suas próprias certezas. E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo para que você não se sinta demasiadamente seguro.

Desejo depois que você seja útil, não insubstituível útil, mas razoavelmente útil.E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.Desejo ainda que você seja tolerante, não com que os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente.

E que essa tolerância não se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.

Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais, e que sendo maduro não insista em rejuvenescer, e que sendo velho não se dedique a desesperar.Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.

Desejo por sinal que você seja triste, não o ano todo, nem um mês e muito menos uma semana, mas um dia.Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora mesmo, mas se for impossível amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes.

E que estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um João-de-barro erguer triunfante seu canto matinal. Porque assim você se sentirá bom por nada.

Desejo também que você plante uma semente e acompanhe seu crescimento dia a dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isto é meu.Só para que fique claro quem é o dono de quem.

Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.Mas que essa frugalidade não impeça você de abusar quando o abuso se impuser.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra. Mas que se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.Desejo por fim que, sendo mulher, você tenha um bom homem e que sendo homem tenha uma boa mulher.

E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente de agora até o próximo ano acabar.E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor pra recomeçar.

E se isso acontecer, não tenho mais nada para desejar.

Fonte: Folha da Tarde – Porto Alegre – 30 de Dezembro de 1978.

Jayme José de Oliveira
cdjaymejo@gmail.com
Cirurgião-dentista aposentado

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